sábado, 23 de janeiro de 2016

Rua dos Querubins






Rua dos Querubins, Número 18
(Gleidson Melo)


O humilde rapaz de cidade do interior seguia tranquilo. Em passos leves e aprumados nas linhas do tempo, cantarolava a canção da felicidade. Para Laurindo, um charmoso rapaz esperançoso e de objetivos certeiros, isso era possível, porque em Palhoças, uma pacata cidade, tudo encantava.

O azul do céu enchia os olhos e contemplar a natureza de manhãzinha ensolarada não existia preço que pudesse pagar.

Os pássaros comiam nas mãos das pessoas e acompanhavam os passos de quem podia caminhar nos gramados verdejantes. Ao levantar os pés, sacudia um pouco de terra que chamava a atenção, o suficiente para compartilhar da companhia agradável dos joões-de-barro e sabiás.

Mesmo convivendo no paraíso dos riachos e das esplendorosas cachoeiras, deixar a vida pacata de peão de fazenda e seguir rumo à cidade grande, constituía uma decisão importante e desafiadora. A capital, repleta de surpresas espantava e saltava aos olhos.

Bem sabemos que não há mal nenhum em ter que encarar as agruras do dia a dia. Difícil mesmo é conviver com a fome, a violência e o caos instalado nos grandes centros. Mesmo assim, Laurindo não desistia dos seus desejos.

- Mãe, Pai, tenho que partir, chegou a hora.
- Meu filho, Deus abençoe você e dê muita sabedoria. Recomendava dona Lurdes.
- Laurindo, você é um filho muito especial e estaremos sempre de portas abertas para acolhê-lo. Com sentimentos, argumentava o seu Manoel.

Abraços e beijos marcaram a breve despedida do único filho do casal.

Foram dez horas de viagem tranquila, que lhe trouxe muitas recordações. O vento no rosto e as imagens do passado passavam como num belo filme da vida feliz e da infância bem vivida. Aos poucos a paisagem bonita ia se transformando e o caminho de terra dava lugar ao asfalto.

A cada cidade surgia uma novidade, com jeito típico e próprio do lugar. Tudo contribuía para tornar a trajetória agradável, enquanto a lua cheia fazia parte de um contexto deslumbrante.

Era domingo e a calmaria não revelava o que estava por vir. Foi quando Laurindo chegou ao grande centro urbano. Logo, conheceu Paula, uma bela moça de olhos negros e de pele morena cor de canela. O encanto e um clima de romance passou a tomar conta do momento, que fez palpitar os corações.

- Olá, Laurindo! A sua tia Ângela falou muito bem de você.


- O meu nome é Paula, prazer e conhecê-lo!
- Belo nome, Paula!

Leopoldo, o seu tio por parte de pai, o convidou para entrar e guardar as poucas bagagens que trouxe. A tia Ângela, uma mulher generosa e cuidadosa, havia preparado uma mesa farta. As delícias lembravam a infância de um menino feliz e sonhador: pães caseiros, geleia de morango e um delicioso café passado no pano.

- Venha, Laurindo, entre!
- Estávamos com saudades de você.
- Eu também, minha tia.
- Como você cresceu meu jovem rapaz.
- Isso mesmo, meu tio, a vida na fazenda é muito farta.
- Além disso, todos os dias passeava a cavalo, tomava banho no riacho e comia muitas frutas.
- Filho, aqui na capital a vida é diferente e com certeza, bem agitada.

A acolhida lhe trouxe conforto e segurança. Afinal, atender bem era marca registrada da família Silva.

Encarar a vida melhor e esperar que tudo se encaixe como num quebra-cabeças de duas peças, isto não vai acontecer.

Muita gente acredita no destino. Tudo bem, nada de errado, mas nem todas as pedras se encontrarão um dia. Essas e outras assertivas rondavam a mente do jovem, enquanto descansava a primeira de muitas noites em Paraisópolis.

Os pés firmes no chão eram o seu porto seguro, mesmo assim não passava pela cabeça medir razão e emoção. Tudo fluía naturalmente, pois estava certo dos seus objetivos.

A moça que o encantou, com ar de quem não queria nada, no dia seguinte chamou-lhe para ir ao cinema.

- Oi, Laurindo!
- Vamos ver um filme?
- Dizem por aí que é lindo: “O amor estar no ar”, do famoso cineasta Andrade Pomposa.
- Claro que aceito. Respondeu Laurindo, sem titubear.
- Sessão da tarde, confirmou Paula.
- Vou te contar um segredo, Paula, nunca fui a um cinema.
- Dizem que é um espetáculo ver um filme passar numa tela grande.
- É verdade e você vai ficar maravilhado.

O filme era encantador e o casal trocou carinhos. Surgia um sentimento que jamais Laurindo poderia imaginar. Para muitos, amor à primeira vista e paixão meteórica têm tudo a ver.

E um grande amor aconteceu. De repente, inesperadamente e sem tempo para raciocinar ou fugir das armadilhas da paixão. Laurindo e Paula viveram momentos inesquecíveis. Lado a lado e sem compromissos com a vida. Nada mais existia, além do puro doce da paixão instalada nos corações.

Os sentimentos foram tomando grandes proporções e mal sabia o jovem galã que estava preso nas armadilhas do cupido.

Muitas das vezes os jogos de amor podem dar certo. Sempre paga-se um alto preço quando algo sai errado. O efeito é tão poderoso quanto cair de um abismo ou chegar ao fundo do poço sem cordas de segurança.

Dito e feito, alguns meses depois chegara o momento menos desejado para qualquer relacionamento amoroso, no qual sempre alguém sai mais ferido.

Tardinha de sábado, um belo dia, apesar da chuva fina que caía, porém de clima romântico, como todos os dias de céu cinza. Seguia caminhando pelas calçadas das ilusões, muito conhecida no bairro e nada poderia ser tão perfeito.

Enquanto assoviava a sua canção predileta:

- Hoje eu quero é ser feliz... Amor da minha vida.
- Amar é bom demais, eu sei.

Um golpe de vista inesperado aconteceu e Laurindo surpreendeu-se:

- Ufa!
- Não acredito no que vejo.

Pasmo e surpreso presenciou uma cena de traição. Isso mesmo, a verdade é que a bela morena aproveitava a vida do jeito que podia. Fábio, o primo mais velho de Laurindo, ainda adolescente, contribuiu ainda mais para que a decepção fosse maior. Completamente perdido, ele não sabia exatamente o que fazer.

Dizem que tudo na vida pode servir como lição e aprendizado. Podemos aprender com as nossas próprias falhas.

Mas, que enrascada Laurindo foi se meter. Como aconteceu na primeira película que assistiu, o galã foi traído por uma pessoa muito próxima e sua amada se deu muito bem.

Imediatamente, Paula largou o garoto e tentou explicar o que não poderia ser explicado.

Nada justificava um feito daqueles:

- Amor, não é nada disso que você está pensando.
- Fica comigo, você sabe muito bem que eu amo você!

A resposta de Laurindo foi o silêncio. Inebriado pelo fracasso, apenas caminhou rumo ao desconhecido. Mil coisas passaram pela sua cabeça, mas nenhuma delas trazia uma resposta certeira que pudesse conformá-lo.

Nessa vida, tudo passa. Difícil mesmo é saber esperar. Foi um verdadeiro golpe e a sua vida se transformou.

Depois se afastou de todos e os sonhos pulverizaram-se ao vento, no instante em que a autoestima fluía por água abaixo. Com tanta mágoa, Laurindo decidiu sair da casa dos tios, pois era impossível conviver ao lado do seu primo Fábio.

Com tanta decepção, buscou alento nos braços das ruas.

- E os sonhos?

Mesmo no desconforto das sarjetas e com o passar do tempo, o aventureiro levava consigo um verdadeiro dom.

Um mês depois conheceu o seu Caçula, um senhor de uns sessenta e cinco anos. Era o vendedor de flores da Rua dos Querubins. No entanto, o que chamava mais atenção era a forma como ele tratava as pessoas e encantava a todos que passavam próximo da sua banca multicolorida e perfumada, devido à simpatia que irradiava no semblante.

Todos os dias o homem trazia uma novidade para a freguesia e recitava um poema apaixonante. Até mesmo quem já havia perdido um grande amor ou sofrido por desilusões amorosas, não resistia às palavras de sedução.

As ofertas eram inusitadas e o homem vendia as flores e oferecia versos aos corações apaixonados:

- De ti, meu amor, evola-se o perfume das flores da primavera, que de tão delirante envolve os meus anseios; viaja na minha mente e flecha a Minh ‘alma. E na sombra do luar, em noites iluminadas pelas estrelas, incendeia os meus desejos e sublima um delirante frescor chamado amor!

Aos poucos, Laurindo foi assumindo o posto de vendedor de flores e passou a ganhar popularidade. A simpatia irradiava em seu olhar. Ele vendia flores tão bem quanto o mestre Caçula:

- Flores perfumadas encantam e agradam o seu amor.
- Presenteie o seu bem e sinta o prazer da felicidade.

Com o apoio recebido de uma pessoa tão especial, pode erguer-se e passou a morar sozinho em um humilde casebre. Era uma casinha amarela, com janelas em frestas que sobressaiam ao brilho do luar. Naquele lugar, sentia-se bem e reavaliava o quanto era importante viver e ser feliz.

Os sonhos e os objetivos afloraram mais uma vez e Laurindo buscou dedicação e empenho para as novas conquistas. Após muitas noites em claro, inscreveu-se e conseguiu aprovação no vestibular. Escolheu uma área de conhecimento que pudesse dar aporte para cuidar melhor das pessoas mais carentes. Poder tratá-las de uma forma especial, com afeto, carinho e simpatia.

Encontrou a oportunidade perfeita para se doar a quem necessitasse de atenção, principalmente os mais jovens e os mais idosos. Acreditava que dessa forma, muito sofrimento poderia ser amenizado.

O jovem Laurindo trazia consigo um lema de força e esperança:

O amor e a solidariedade para um mundo cada vez melhor.

O sonho era o de mudar o mundo com as boas atitudes. Era difícil, porque muita gente não entendia o verdadeiro significado da vida. Igualmente, foi difícil para si mesmo interpretar esse valor, pois viveu dias penosos na rua. Mas, uma coisa era certa, enfrentou tudo com muita dignidade.

Após um longo período na academia, chegou a tão esperada formatura de encerramento de curso. E por ser o melhor, dentre os demais acadêmicos, recebeu as láureas merecidas. Tudo foi possível, porque além da dedicação, os trabalhos apresentados em Congressos Nacionais e Internacionais, na área de Assistência Social e Humanitária, renderam-lhe muito prestígio.

Em menos de um ano de formado desistiu de uma proposta tentadora, a de trabalhar em uma reconhecida instituição filantrópica do país. Preferiu seguir para o curso de Doutorado e PhD no exterior. Em pouco tempo, Laurindo aprendeu a se comunicar em vários idiomas, incluindo o inglês, francês, espanhol e o alemão.

Mais adiante, estudou música e tornou-se líder de uma organização que cuidava de meninos e meninas portadoras do vírus HIV, num país tropical e castigado pela miséria.

Tudo lhe caía como uma luva, pois o canto servia de conforto e acalmava o coração daquelas frágeis crianças.

Conheceu muitos lugares e participou de eventos, nos quais apresentou, para grandes públicos, a sua história de vida e os ensinamentos mais primitivos que aprendera numa pequena cidade do interior chamada Palhoças.

Ele demonstrava orgulho pela educação que os seus pais puderam lhe dar. Dessa forma, transmitia os desejos de transformar ilusões em sonhos atingíveis e palpáveis. Laurindo enfatizava que o prazer de viver poderia estar cada vez mais vivo e presente na sua vida.

Hoje, aos sessenta anos, conta a sua fantástica aventura, para quem o visitar no Lar das Saudades, localizado na Rua dos Querubins, número 18.

Disponível no site Enseada dos Pensamentos

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