terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O Tesouro Perdido



O Tesouro Perdido
(Gleidson Melo)

Hoje em dia é difícil acreditar na existência de baús de tesouros espalhados mundo a fora, principalmente numa pequena cidade no interior do Brasil. Em Maracanã, um pequeno povoado, a comunidade sempre viveu com poucos recursos financeiros. Certamente, não precisava-se de muito para ser feliz.
Na escola, os meninos estudavam até o encerramento do Ensino Fundamental. Em tese, ou faltavam mais incentivos que pudessem incluir os jovens em cursos profissionalizantes, ou porque eles não tinham interesses em seguir à diante.
Lá, as novas tecnologias passavam bem longe. Internet, smartphones, tudo isso não era necessário e ninguém sentia a falta. Porventura, a terra abençoada por Deus, era produtiva e provia o sustento dos seus moradores. Logo, o interesse em ir para o grande centro era pouco ou quase não existia.

A felicidade estava ali mesmo e não precisava ir buscar noutro lugar. Na capital, o mundo parecia cruel, mas, em Maracanã era diferente, pescar e comer o próprio peixe era gratificante e o prazer não tinha preço. Subir nos pés de manga, observar a beleza das aves e correr atrás de pipas coloridas constituíam encantos e agrados para qualquer criança.
Como tudo na vida, um dia as coisas mudaram. Certa vez, surgiu uma notícia com uma proposta um tanto tentadora - a novidade parecia ter saído de histórias de piratas -, no entanto, Maracanã não possuía piratas e muito menos o mar. Tudo era compensado pelas belas cachoeiras e riachos de águas cristalinas que enchiam os olhos e proporcionavam uma sensação de prazer.
O primeiro a receber o comunicado foi o seu Fabrício da Mercearia Central. Dizem por aí que fofoca é coisa que corre em boca miúda. É verdade! Num instante, todo mundo sabia da novidade trazida por um aventureiro. Era um homem de pele clara, trajando vestes esquisitas, com uma jaqueta de vários bolsos e botas estilo “aventura”.
O moço parecia um arqueólogo e os seus boots sujos de terra não negavam que se tratava de alguém que procurava algo que pudesse estar enterrado no chão, em algum lugar próximo da região de Maracanã.
- Boa tarde, senhor! Cumprimentou o dono da mercearia.
- Em que posso lhe ajudar?
- O meu nome é Jaques e estou aqui para dizer que tenho uma notícia muito boa para os moradores de Maracanã.
- E qual a notícia? Perguntou o seu Fabrício.
- É que nas redondezas de Maracanã há indícios da existência de um tesouro valioso enterrado por um fazendeiro muito rico e que não queria deixar heranças.
- Não acredito! Conte um pouco mais da novidade. Surpreso, questionou o seu Fabrício, com os olhos brilhando de felicidade.
- Tenho as pistas que podem levar a esse tal tesouro.
Como em qualquer região, sempre poderão existir histórias, das mais medonhas possíveis. Naquele instante, contou o forasteiro que após a época em que os escravos haviam sido libertados das casas de engenho, um senhor muito rico havia enterrado toda sua fortuna em algum local das redondezas do povoado.
Dizem que o homem era podre de rico e tinha um semblante muito sombrio e tenebroso, gostava de castigar os escravos e era cruel com a família.
         - Das minhas andanças, descobri que o senhor de engenho havia enterrado toda a sua herança e deixado algumas pistas que somente poderiam ser reveladas depois de muito tempo. Explicou Jaques, o forasteiro.
Como um raio que risca o céu e encontra o chão, a notícia corria de boca em boca. A verdade é que todos acreditaram que os sonhos de encontrar um tesouro poderiam se tornar realidade e os anseios e desejos passaram a fazer parte da vida de cada um morador de Maracanã, principalmente dos mais novos e dos mais velhos.
O alvoroço passou a atrair a atenção, até mesmo daqueles que moravam em lugarejos vizinhos, pois a fortuna poderia estar em qualquer lugar. Por ventura, ser encontrado dentro dos terrenos das casas de qualquer um dos moradores, isso trazia uma sensação de euforia muito boa para todo mundo.
Caio era um jovem rapaz que sonhava um dia ser muito rico. Imediatamente, foi movido pelo prazer do desafio de encontrar o tão desejado tesouro e assim, receber um título de Coronel e comandar muitas fazendas de Maracanã. Seria o máximo para um rapaz de treze anos. Dona Francisca, a sua mãe, viajava em pensamentos e flutuava nas asas da imaginação.
Em busca do tesouro perdido muitas coisas puderam ser encontradas e dentre elas, o prazer de viver grandes momentos de aventura. O homem esquisito, chamado por todos de forasteiro, trouxe mapas e notícias da época dos engenhos, que remetiam a pistas para encontrar o tesouro. A primeira delas levou todo mundo para dentro da profunda e misteriosa Caverna dos Morcegos.
Era apavorante imaginar ser vampirado pelas criaturas da escuridão. Mesmo assim, a adrenalina era o suficiente para encarar o desafio. Com muita dificuldade, Caio e os três amigos, Joel, Roberto e Ismael, foram os primeiros a descerem o precipício. Lá, descobriram carcaças de animais que despencaram do barranco e morreram de fome. Descobriram que o nome não fazia jus ao lugar, porque morcegos não havia naquele lugar.
- Poxa, Caio, que aventura! Comentou Ismael.
         - Que aventura, que nada, encontraremos o tesouro e ficaremos muito ricos. Disse Caio.
Enquanto isso, os meninos permaneciam na missão e atentos. Com tanta atenção dispensada, constataram que perderam muito tempo em vão, pois não encontraram nada parecido com a descrição deixada pelo forasteiro. Então, Caio teve a ideia de seguir para a próxima pista, ainda na caverna. Levava para o provável tesouro e surgia das escrituras das paredes.
Os desenhos remetiam a mapas com algumas setas que apontavam para a Cachoeira do Escorrega Macacos, a mais temida queda d’água da região.
 Enfrentar a profundidade do rio constituía um ato de coragem para quem se atrevesse a entrar nas águas misteriosas.
Astuto, Caio foi o primeiro a chegar ao local.
Realmente, a indicação deu a precisão correta.
- Que maravilha! Confabulava o rapaz.
- Belezura de cachoeira. Comentou Ritinha, uma linda garota de olhos cor de esmeralda. Era uma das meninas do grupo, que sorrateiramente se aproximou de Caio.
- Verdade, Rita! Seja bem-vinda!
- E vocês, encontraram alguma coisa?
- Nada demais, Rita. Respondeu Joel.
         Rita sempre foi uma garota simpática e inteligente. Levava a vida numa boa e adorava estudar e se divertir no campo. No entanto, a aventura do momento deu um sabor todo especial.
Num clima de investigação, avistaram algo interessante e que poderia mudar completamente o rumo da caçada. Ou não?
- Caio, você viu aquilo? Apontou Joel.
- Não consigo ver nada demais.
- Estou vendo, é uma passagem que fica abaixo da linha d’água. Afirmou Rita e seguiu na direção da cachoeira.
- Nossa, Rita, você é um gênio! Exclamou Caio.
         Não perderam tempo e mergulharam no desconhecido. Alcançaram uma passagem e com pouco ar conseguiram chegar a uma gruta ornada com cristais lapidados pela natureza. Dentro do esconderijo dava para sentir uma sensação de conforto.
- Mas, cadê Joel? Perguntou Caio.
- Credo! Aonde foi parar o menino? Questionou Ritinha.
         Por um instante o desânimo invadiu aquele lugar e o coração acelerou mais forte. Em pouco segundos, Joel surgiu no meio das águas, sã e salvo.
- Joel, você está bem? Perguntou Caio.
- Sim, apenas aguardei um pouco, porque temia a profundidade do riacho. Respondeu o menino.
Enquanto isso, todos os moradores da cidade descobriram que a lenda do tesouro enterrado não passava de uma peça pregada por Jaques, o aventureiro. Tão logo, todos retornaram para as suas casas, enquanto a pacata rotina da cidade do interior se fez presente mais uma vez.
Na gruta da Cachoeira do Escorrega Macacos, Caio, Joel e Rita, fizeram uma grande descoberta. Encontraram um baú empoeirado. Quando abriram, encontraram um pergaminho com escritas desenhadas com caneta-tinteiro:
“Parabéns! Você conseguiu encontrar o verdadeiro significado da vida.”
         O forasteiro, por natureza, era um homem que havia fugido do manicômio e gostava de aprontar por onde passava. Seguiu tranquilo e rumo à próxima aventura, noutra pequena cidade do interior. Aos passos leves, levou consigo novas pistas que remetiam a sonhos e realizações.


Disponível no site Enseada dos Pensamentos

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