quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O Mistério da Luz





O Mistério da Luz
(Gleidson Melo)

I - Vida de Criança

Nada de errado para uma pequena e pacata cidade do interior do Brasil. O município de Aquidauana, nome de origem indígena Guaycurús – significa Rio Estreito – guarda tradições e costumes que vão passando de geração para geração. A cidade, cortada pelo rio e a ferrovia, aos poucos foi ganhando um ar de prosperidade ao longo dos tempos.

O trem, além de transportar pessoas, carreava a produção agrícola e outras riquezas da região. Hoje, deu a vez para o Trem do Pantanal, com finalidade meramente turística. Ainda assim, é um prazer poder viajar e apreciar através da janela, uma paisagem bela e exuberante. Sempre embalado ao ritmo da música regional pantaneira e ao som do apito, quando a composição se aproxima da estação.

A felicidade sempre fez morada nos corações daquela gente. Prazer mesmo é poder descansar na rede de dormir, ou curtir a calmaria e o silêncio das chuvas de finais de tardes de verão, período em que as cheias ditam o ritmo da vida no Pantanal de Mato Grosso do Sul.

Ainda na década de setenta, próximo à estação, morava Hermenegildo. Era um homem de comportamento rígido e de pouca conversa. Lidava com o gado, adaptado ao clima e à rusticidade daquele lugar. Em sua comitiva pantaneira, sinônimo de inspiração para as cantorias de moda de viola caipira, esbanjava rusticidade. A sua esposa Mariluce, uma mulher meiga e de bom coração, mantinha o equilíbrio emocional da família. Com ar de serenidade conseguia amenizar toda e qualquer situação embaraçosa que pudesse acontecer.

Sofia, de 15 anos, a filha mais velha, sonhava com um mundo melhor e era apaixonada por Literatura. Em qualquer situação de tempestades, com raios e trovoadas, permanecia concentrada na leitura de Jorge Amado, seu escritor favorito. Incansavelmente, lia e repaginava “Capitães de Areia”; por várias vezes, deleitava-se com as peripécias de Pedro Bala e a sua coragem para enfrentar as desventuras da vida.

Era tardezinha de sábado e Hermenegildo chegava da comitiva, cansado e irritadiço, porque não havia recebido o pagamento: um salário de peão de boiadeiro. Enquanto isso, a esposa o esperava com a mesa pronta. Servia-lhe um café preto com leite fresco, chipas e fatias de sopa paraguaia.

As crianças, com exceção de Sofia, corriam pelas ruas do bairro e sequer lembravam-se da chegada do pai. Quando não encontrava os meninos em casa, Hermenegildo não poupava o palavreado. Logo na chegada, muito bravo, questionou,

“Mariluce, onde estão Feliciano e Serafim?”, com aquela calma de sempre, mas, respondeu com ar de preocupação, pois sabia que a ira do pai poderia ser descarregada nos moleques. Então, a fim de poupar os garotos, a mãe apenas disse,

“Amor, os meninos estão na casa do primo Everaldo”. Inconformado, insistia Hermenegildo,

“Não acredito – a mesma conversa de sempre – quando eles chegarem resolverei toda essa situação”.

Com o propósito de inquietar, aos berros chamou a filha,

“Sofia, Sofia!”, “sim, meu pai”, respondeu com temor.
“Traga seus irmãos, porque hoje eu não estou para brincadeiras”.

Hermenegildo nunca brincava com ninguém e arrancar-lhe um sorriso era desafiador. Num instante, Sophia se foi à procura dos dois irmãos. Depois de muito tempo, os encontrou na rua do chafariz. Lembro-me muito bem das muitas brincadeiras ao anoitecer. A criançada corria solta e isso proporcionava uma imensa alegria e satisfação.

“Feliciano e Serafim, papai chegou e está furioso. Vamos pra casa, agora!”, implorou Sofia.

Responderam sem muito interesse em largar a brincadeira,


 “Depois eu vou, respondeu Feliciano”, o mais traquina e mais velho.

 “Então, tudo bem, depois não vai dizer eu não avisei”.
 “Vamos, Serafim, porque papai está muito bravo.”

Ao chegarem, nada aconteceu com Serafim, porque atendeu ao pedido do pai. Depois de muito tempo, já era noite e Feliciano foi pra casa com as roupas sujas de terra. Ao chegar, foi abordado com a ira do pai. Tudo bem, uma surra não lhe fazia tão mal - embora, pudesse traumatizar -, mas, o prazer da brincadeira era sempre maior. Sabendo disso, preferia infringir as normas: nadar no rio, pescar peixinhos e assar no braseiro; correr até cansar e atirar pedras nas mangueiras para coletar frutos maduros, era sensacional.

Mas, daquela vez não teve como Mariluce interceder em favor do menino. Foi uma surra inimaginável, tão poderosa, que até hoje Feliciano conta com muita propriedade e lembranças daqueles maus momentos.

Próximo, distante de duas quadras, morava Firmino, um garoto de nove anos de idade, filho de Everaldo e primo de Feliciano e Serafim. Gostava de brincar com as crianças do bairro, nas ruas sem calçamento, num chão de terra batida cor de chocolate, que deixava tudo num tom marrom brilhante.


II - Mistério no Céu

Primavera de 1975, pouco antes do Estado de Mato Grosso do Sul conquistar a sua emancipação política; a noite era de um luar esplêndido e dessa vez a criançada aproveitava para brincar de bolita, num passatempo que ainda faz parte da vida da garotada. Isto é, daquelas que não ficam cerradas em suas casas ou apartamentos, ou impedidas, dada a violência que assola em qualquer lugar que se possa imaginar e seja habitado.

Hora do recolher e a criançada fora convidada para tomar banho e limpar muito bem os pés carregados de uma sujeira impregnada e difícil de remover. Luizinho foi o primeiro dos meninos que se evadiu do local.

Seu Fernando era rígido e não aliviava nem um pouco. Até parecia que não fora criança um dia.

“Passa Luiz, entra! Pela última vez, senão conversaremos com uma vara de goiabeira”.

Sem muita insistência o garoto foi embora. Depois disso, as meninas Rute e Letícia, filhas de José – o dono da padaria –, foram para as suas casas. Seu José era um homem de bom coração. Sempre presenteava a garotada com pães doce e pães de queijo, bem quentinhos.

Naquele intermédio de tempo, entre o momento em que as crianças que foram pra casa e as poucas que ficaram, ocorreu um fenômeno estranho que tomou o céu de Aquidauana. Os meninos ficaram perplexos. Era uma claridade assustadora, para quem se aventurasse a fixar os olhares para o alto. Acontecia algo inusitado e tão misterioso quanto o mais intrigante segredo das estrelas.

Ao chegar em casa, questionei a minha mãe,

“Aquela luz, lá no céu, a senhora viu o que era?”
“Nada, meu filho. Era apenas a luz da lua que despertou a sua curiosidade”. Respondeu a minha mãe Dolores, sem ar de preocupação. Mas, eu insistia e não parava de perguntar,

“Mamãe, aquilo não era a luz da lua. Vi alguma coisa estranha, além do clarão”.
“Não era nada demais. Os meninos na sua idade têm uma imaginação muito fértil”.

Certamente, eu tinha uma imaginação muito fértil e muitos fatos curiosos aconteceram na minha infância. A verdade é que a lua passava bem despercebida para muita gente.

Os meninos cresceram e muita ou pouca coisa mudou na vida de cada um. A cidade continuou com o seu encanto peculiar e a vida seguiu naturalmente. Porém, o que passou a mudar mesmo foi com a chegada das inovações tecnológicas, que invadiu os lares e trouxe muita comodidade. O walkman foi substituído por novos equipamentos, até à chegada dos headphones sem fios, capazes de reproduzirem centenas de músicas, sem a necessidade da velha fita K7. Aquela, que era necessário o auxílio de um lápis para destravar ou rebobiná-las, quando davam pane e travavam. Isso, quando a fita, marrom ou castanha, onde eram gravadas as trilhas das músicas, não se partia. Assim, com muita criatividade, eram emendadas com adesivo transparente.

As lembranças do passado sempre vêm à tona, e no baú da memória resgato acontecimentos curiosos e inusitados. Verdade ou não, algo medonho e parecido havia ocorrido na minha infância – talvez de forma diferente – não sei? No final dos anos 80, eu, Paulo, era um daqueles meninos que gostava de brincar em volta do chafariz.

Na mocidade fui servir à pátria querida e incorporei às fileiras do Exército, num quartel de tradição, que em 1944 passou a integrar a Força Expedicionária Brasileira, a qual enviou militares para a Segunda Guerra Mundial. As tropas foram as primeiras do Exército Brasileiro a entrarem em combate nos campos da Itália.

Saudades à parte, o batalhão preparava-se para realizar a marcha-a-pé de 32 km, e atravessar o campo não era uma tarefa muito fácil. Mas, a grande jornada era compensadora, pela oportunidade de poder contemplar a natureza.  Foi quando despertei o meu interesse pelas aves do Pantanal. Assim, araras e tuiuiús completavam o magnífico cenário.

III - A Luz

 A etapa diurna do exercício da tropa foi repleta de surpresas. Todas elas eram programadas para o adestramento dos soldados recrutas. Caminhávamos bastante e quando o cansaço batia no lombo, era dado um auto-horário, uma espécie de comando para que pudéssemos descansar à beira do caminho e recuperar energias para cumprir às próximas etapas. Momento para curtir “Legião Urbana” no velho walkman, em pleno auge do rock nacional, que pouco depois perdeu espaço para o som do axé music.

Logo após o descanso, partimos em linha reta e seguimos em frente. O décimo quilômetro foi de muita surpresa; quando menos esperávamos, fomos surpreendidos por rajadas de fuzis, estrondos de explosivos TNT e granadas. Parecia uma guerra, de fato. E tudo servia para o treinamento, enquanto o vento soprava, assobiava e quebrava o silêncio.

Bem sabíamos que os estrondos não eram tiros reais e as explosões eram realizadas em locais seguro. Mas, certamente, alguns soldados bisonhos não sabiam disso e entravam em pânico.

Mais à frente, o primeiro a avistar a presença do “inimigo”, soava um apito e outro bradava em voz alta,

“Inimigo, inimigo!”

Para eventos dessa natureza, o soldado Rolim era perito, porque se destacava pela destreza e espírito militar. Contudo, fora o destaque da marcha e de todos os acampamentos realizados pelo batalhão.

No final da tarde, quando surgia no céu um avião, o alerta era dado pelo nosso comandante de pelotão, o tenente Silva,

 “Ataque aéreo, doze horas!”

Era o momento de abandonar a estrada e rastejar no meio do charco e da lama, para se abrigar e se proteger do “inimigo”. A aeronave podia ser qualquer uma que sobrevoasse o local. Naquela ocasião, não passava de um pequeno avião agrícola, que porventura sobrevoava no momento da marcha.

A situação era encarada como uma missão real e de guerra. Além do mais, proporcionava um prazer muito grande, porque a experiência era única e servia para dar moral e render longas histórias com a família e amigos.

Eu e Feliciano (o filho do seu Hermenegildo), um velho amigo de infância, permanecemos firmes e fortes no combate. Mesmo assim, vi o meu amigo bem cansado, maltrapilho e sujo de lama.

“Tudo bem com você Feliciano?”, perguntei-lhe.
“Sim, Paulo, estou bem!” Respondeu entusiasmado com a situação.

Realmente, servir ao Exército sempre foi um desafio para muitos jovens de família daquela época. Hoje em dia, o sexo feminino se fez presente; é comum encontrar nos quartéis, moças elegantes no meio dos marmanjos. Certamente, com força total e desempenhando suas atividades de forma significativa.

Ao cair da noite, já no quilômetro 25, próximo à área de acampamento, fomos surpreendidos por um forte clarão. Dessa vez, percebia-se que não se tratava de um treinamento para adestramento da tropa, porque parecia ser bem real. Perplexos, os soldados não esboçaram nenhuma reação e ficaram quietos. Enquanto a luz riscava o céu, subia, descia até o primeiro terço da linha e na horizontal, formava uma cruz. Apagava e recomeçava a formação da imagem misteriosa.

“Silva!” Comandava o capitão Alves de Lima.
“Sim, Senhor!” Respondeu o tenente.
“Reúna o seu pelotão e faça uma patrulha no local”.

Feliciano e eu, juntos aos outros soldados, partimos com a patrulha e fomos verificar o que estava acontecendo. Confesso que não foi uma tarefa fácil.

“Feliciano, Feliciano, tudo bem?” Murmurava bem baixinho.
“Tranquilo, companheiro!” Respondeu com a voz trêmula.
“Vamos ficar próximos um do outro.” Fiz o pedido.
“Calma, não vai ser nada demais, Paulo.”

O pelotão foi averiguar e deparou-se com algo assustador. A missão não teve o êxito desejado e retornamos sem respostas. Mas, uma coisa era certa, estávamos horrorizados com a escuridão e as luzes em forma de cruz. Encontramos um cemitério abandonado e em ruínas. Era tudo o que conseguíamos explicar para o capitão Alves de Lima. Logo, o acampamento que estava previsto, após a marcha, foi cancelado.

Por muitos anos o percurso e os exercícios de treinamento militar naquela região deixaram de acontecer, porque o receio de se depararem com a incidência da luz misteriosa era iminente.

Hoje em dia, ainda guardo as boas lembranças dos velhos tempos e das chalanas que deslizavam nas águas do Rio Aquidauana.

Disponível no site Enseada dos Pensamentos

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