sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Contos de Roda



Contos de Roda
(Gleidson Melo)

A tradição das histórias de assombrações ainda se faz presente na cultura pernambucana. Quando criança, toda a meninada se reunia para contar causos medonhos. Dava arrepios e quando uma coruja passava com o seu canto, era como se fosse o rasgar de panos de mortalhas, contavam os mais velhos. E o pior de tudo, rogavam que alguém daquela rua iria morrer da noite pro dia. Mas, o fato era que naquela rua viviam as pessoas mais idosas do pequeno bairro.

Hoje em dia, tudo é bem diferente e o papo restringe-se a filmes de terror. Contudo, tudo pode ter começado com uma película chamada “A Hora do Pesadelo”, seguida por Jason e as suas “Sextas-Feiras 13”. De lá pra cá, a tradição dos contos repassada através de gerações, foi perdendo o seu destaque e praticamente toda a juventude se amarra em tecnologias, nas quais podem ser incluídos os famosos joguinhos de monstros. Emocionante era ouvir “Mistérios do Além”, um famoso programa do rádio, predileto das madrugadas sombrias do Recife. As histórias narradas eram de tirar o fôlego e deixava qualquer um com os nervos à flor da pele.

Dentre tantas, vale destacar a mais especial de todas, a qual pude interagir com a alma penada. Toda meninada estava muito próxima a uma cerca viva formada por avelós, um certo arbusto que libera uma seiva leitosa e ardente para os olhos. Isto acontece quando os finos e delicados galhos são quebrados. Dizem que pode até cegar, mas serve muito bem como ornamentação.

Era uma noite muito refrescante e o vento contribuía para o nosso bem-estar. Noite adentro, a conversa fluía solta, foi quando de repente eu vi uma sombra e uns mexidos no mato. Estávamos em frente da casa dos seu Amâncio e dona Lúcia, uns simpáticos velhinhos que levavam a vida numa boa e da melhor forma possível. O lugar era misterioso e cercado por grandes árvores de aroeira e com muitos pombos em suas casas de madeira. Tudo aconteceu no momento em que estávamos contando a décima história de assombração e passava das onze da noite. Foi quando uma mão surgiu lá de dentro dos arbustos e pude sentir um forte soco nas costas. Com certeza a brincadeira acabou naquele instante. E quem iria querer ficar parado?

- O que foi isso? Apavorado, questionei em voz alta.

- Não sei. Disse Carlinhos.

- Corram, corram! Alertou Batista.

Imediatamente, todos correram e foram para as suas casas. No dia seguinte, os comentários a respeito daquela mão misteriosa foram os assuntos do dia e ninguém quis se acusar. Pra mim, foi tudo tão perfeito, porque não sentimos a falta de nenhum dos nossos colegas do grupo, pois a roda estava completa.

Não demorou muito e já estávamos reunidos para mais uma sessão. Pude contar minha experiência com as assombrações do interior do estado de Pernambuco. Iniciei a contação e o silêncio tomou conta do espaço, enquanto a rua se tornou sombria e misteriosa.

O Sítio Esperança, localizava-se na zona rural de uma pequena cidade do Agreste de pernambucano, chamada Limoeiro, rica por seus costumes e festas religiosas. Resolvemos realizar uma visita surpresa aos familiares que ali viviam felizes. Era um dia com pouco movimento na cidade. Muito pequeno, não recordo dos minuciosos detalhes e sim, daqueles que marcaram e que me lembro com muita clareza.

Chegamos por volta das quatro horas da tarde e, tão logo, perdemos a rural, um antigo transporte muito usado na época, mas que servia bem para levar e trazer famílias e trabalhadores do campo à cidade e vice e versa. Com isso, a minha mãe, para relembrar os idos da sua infância, determinou que fôssemos a pé.

- É bem próximo, sempre caminhava bastante por aqui e não tem nenhum mistério, basta seguir a cerca. Comentou e esboçou o desejo de seguir a caminhada.

- Faz tempo que não ando por essa estrada de barro, mas tudo bem, não vamos nos perder, principalmente aqui, onde cresci e fui muito feliz. Dizia com um ar de satisfação e com um sorriso estampada no rosto.

Quanto a mim e minha irmã, um pouco mais nova – ela não guarda nenhum registro do episódio – tudo era festa e diversão. De pés no chão, estrada a fora, seguimos a marcha do entardecer, entardecer e anoitecer. Mas, imprevistos acontecem e o caminho que dava no sítio caiu no esquecimento. Os atalhos e as trilhas da juventude mudam com o tempo e estávamos perdidos na Zona da Mata pernambucana. Como em qualquer parte do Brasil, o estado de Pernambuco também conta com suas tradições folclóricas e significativas, que de tão importante, nos faz voltar à infância.

Quando nos perdemos, todas as histórias contadas sobre personagens que vivem nas matas vieram à tona. Principalmente porque o sol já estava indo embora. A Comadre Fulorzinha cercava as nossas mentes com os seus longos cabelos. Trata-se de uma lenda do folclore pernambucano, remonta uma bela mulher audaz e protetora dos animais. Dizem que no momento quando um cavalo aparece com a sua cauda entrançada, é sinal de que por ali ela passou. E quando alguém perde o caminho de casa, é porque o seu encanto foi lançado em forma de assobio – a partir daí ela desaparece no ar e espalha o pavor para aquele que se aventurou nas estradas e matas sombrias do interior.

Em particular, não vi nenhuma cabocla naquelas redondezas, mas a ventania dava um ar todo sombrio ao momento.

- E agora, como vamos chegar? Disse a minha mãe, um pouco ansiosa.

- Não tem ninguém por perto; como vamos fazer para chegar até à casa do tio de vocês.

Com o medo instalado nas mentes, outras assombrações surgiram. Por vezes, os mourões das cercas pareciam gente; quando olhávamos, repentinamente sumiam num piscar de olhos. Com as pernas trêmulas, enfim, a noite ia ganhando destaque e no seu ápice chegou à escuridão.

A Perna Cabeluda e a Mulher do Algodão, lendas dos banheiros escolares, eram as que menos amedrontavam. Enquanto isso, a minha irmã nem se comovia, pudera, tão pequena, não imaginava os riscos que corria. No entanto, fiquei perplexo e não era pra menos, foi a primeira aventura longe de casa e pra valer.

A salvação chegou depois de muito tempo, quando encontramos um dos tios que voltava da roça. Avistamos e mal podíamos acreditar que pudesse ser tão real. Naquelas circunstâncias acontecia um verdadeiro milagre. Foram tantos abraços e o alívio trouxe paz e conforto para os nossos corações.

Chegamos ao Sítio Esperança e não mais lembrávamos das horas. Não sabíamos - e para a nossa surpresa -, no outro dia um grande casamento estava para acontecer naquele lugarejo. Mal chegamos e já fomos convidados para o casório de Aninha, a minha prima.

- Que sorte, tia Alice! Comentou a minha mãe Maria.

- Miguel, olha que maravilha de família. Comentou o meu tio Pereira.

Apenas confirmei com a cabeça e com ar de tristeza no olhar, porque os pés doíam muito. Bem cansados e exaustos por causa da longa caminhada, entregamos alguns mantimentos para os donos da casa. Na nossa cultura, quando vamos ao interior, sempre levamos algo para agradar os parentes e amigos. Da mesma forma, quando retornamos, trazemos muitas frutas, macaxeira, inhame, cará e outros gêneros da terra.

Sim, antes que eu me esqueça, lá não havia eletricidade e tudo era na base do candeeiro ou à luz de velas. Em seguida e sem muita cerimônia, repousamos nas redes de dormir. Certamente, de tanto cansaço o balançar não nos assustava tanto o quanto podíamos imaginar. Havia vários convidados que pernoitaram na casa – primos, parentes e amigos da família.

No dia seguinte ocorreu a grande festa e comemos bastante – de tudo um pouco. O prato principal e em destaque era galinha à cabidela, que havia sido preparada na manhã do dia anterior. E como não existia energia elétrica e geladeira, tudo ficava no calor da temperatura ambiente. Era necessário dar uma requentada no fogão à lenha, antes que a panela de barro pudesse esfriar por completo, enquanto o fogo não parava de queimar o braseiro.

Na época, aquele foi um dos dias mais felizes da vida, porque era único. Correr, brincar com a molecada, subir em árvores, andar a cavalo e comer frutas fresquinhas e colhidas, não havia igual. Entretanto, o dia passou rápido demais e a noite foi terrível para todo mundo. Os efeitos da comida causaram um sério problema coletivo. O banheiro – não era como os dos nossos dias – ficava do lado de fora da casa e rodeado por bananeiras. Todos que iam, entravam na fila, e os que ficavam por último desfrutavam de momentos incríveis e sobrenaturais.

Nada de Comadre Fulorzinha, Perna Cabeluda ou a Mulher do Algodão, eram as folhas do bananal que encantavam com a sombra do luar. Todo mundo via a mesma coisa e cada um passava a informação para o próximo, que apenas acreditava na conversa quando via a suposta assombração.

A luz refletia uma mulher de pernas e braços cruzados, que se mexiam o tempo todo. E para aqueles que tinham medo de rã, a sentina estava repleta.

- O que fazer? Fazer o quê? Resmunguei o tempo todo.

E um novo dia despontou com um ar maravilhoso e rodeado de mistérios e encantos, próprios daquele lugar. A rural e as lendas do interior ficaram registradas em nossas mentes e sempre que podemos nos reunir em roda de amigos e parentes, a conversa torna-se um encanto de encher o peito de saudades.

Empolgado, continuei a contar histórias, pois a noite era promissora. Então, dos contos mais apreciados e todos já sabiam o final, iniciei um causo, o da Mulher de Branco.

Acontecia que a tal mulher do além pregava uma peça nos homens namoradores e boêmios. Dessa vez, aconteceu com um rapaz sonhador e romântico.

Dizem que vivia num mundo de sonhos, onde as ilusões fizeram de William um homem amargurado. Tudo lhe parecia entristecer e nada era tão supremo quanto sobreviver às armadilhas da vida. Quando algo não dava certo, parecia que o mundo ia desabar em sua cabeça e nada lhe agradava, até mesmo um simples sorriso.

Num dia de chuva, daqueles em que os raios riscam o céu da cidade, conheceu uma senhorita. Meiga e apaixonante, seus olhos negros seduziram à primeira vista. Enquanto esperava passar o temporal em um abrigo coberto, aproximou-se a bela morena vestida de cetim branco e esvoaçante.

Perplexo, tudo em sua volta mudou, a contar com a autoestima que andava por baixo. Sozinhos, a noite prometia maravilhas. As horas se passaram, enquanto a escuridão dava lugar ao romantismo e a dança das horas favorecia os flertes e galanteios de William.

- Perguntou-lhe, com gestos de ternura e admiração, qual o seu nome?

- Marina, respondeu com voz doce e sensual.

E naturalmente as palavras fluíam:

- Você é linda, Marina!

- Obrigada!

- Você, como se chama?

- William e significa ser forte e protetor. Marina seduzia e conduzia o momento especial.

Enfim, a chuva deu lugar a um clima agradável e convidativo, típico de uma noite de amor.

- O que faremos, disse William?

Sem muitos porquês e questionamentos, Marina segurou as mãos do rapaz e roubou-lhe um beijo.

- Nada demais, meu príncipe.

Felizes e contentes partiram no primeiro táxi e seguiram rumo ao paraíso à beira-mar. Lá, ouvia-se o barulho das ondas que quebravam na praia; da janela do quarto o vento soprava as cortinas e a madrugada fez surgir uma incrível lua, possivelmente cheia de mistérios.

- Antes de a chuva chegar, jamais poderia imaginar estar com uma pessoa tão especial e apaixonante. Você é demais, William!

O champanhe espumante jorrava das taças, enquanto brindavam o fantástico encontro. No dia seguinte Willian sentiu um perfume de flores que evolava-se no ar. Um clima sedutor e ao mesmo tempo sinistro invadiu o seu estado de espírito. Foi quando, ainda atordoado, deu-se por conta e percebeu que estava sobre uma das lápides do mais conhecido cemitério da cidade; era um túmulo com uma inscrição e um pensamento para a eternidade:

“Fruto do sofrimento, és amor sem fim.”

O nome e os números inscritos no mármore desgastado pelo tempo pareciam confusos, mas dava para perceber que se tratava de uma jovem que havia falecido no ano de 1956.

Insatisfeito, William partiu em busca de respostas e chegou a um endereço, o qual a moça havia lhe fornecido.

Chegando ao local, encontrou uma senhora senil - com os seus oitenta e cinco anos -, e fez alguns questionamentos:

- Senhora, por gentileza, qual o seu nome?

- Maria Inês, pois não?

Naquele momento, William relatou os fatos e passou toda a descrição do acontecimento; descreveu tudo e nos mínimos detalhes possíveis.

Em princípio, aquela Senhora não queria fazer uso da palavra e demonstrou certo pavor. Com trato, o homem conseguiu arrancar-lhe algumas informações e ela o convidou para um chá da tarde.

Com afeto, Dona Maria Inês abriu o coração e apresentou os álbuns de fotografias de família e muito sobre as histórias da moça. As páginas amareladas e envelhecidas pelo tempo resgatavam momentos especiais. Em seguida revelou muita coisa sobre a misteriosa mulher de branco.

- Meu filho, aqui nesse bairro antigo morava nesta casa uma moça chamada Marina e era a minha irmã preferida.

- Certo dia, antes de a chuva chegar, seguiu para a orla marítima e nunca mais retornou para este lar. Hoje, encontra-se em seu túmulo e permanece nas lembranças e aparições de homens infelizes e insatisfeitos.

Enquanto encerrava o conto, os olhos dos meninos brilhavam e o sentimento de medo tomava conta do ambiente. Mas, com a corda toda, continue e como parte do repertório, os fantasmas escolares ganhavam destaque, porque todos estudavam na mesma escola.

Há quem não acredite, mas quando fecham os portões da Escola Estadual, num bairro do Recife, ninguém quer ficar por lá. Os relatos foram passados por uma antiga merendeira, dona Alba e remetiam, tanto ao estabelecimento, quanto à região do Ibura.

Sempre contávamos as histórias da escola no nosso grupo, porque vários acontecimentos deixaram aquele lugar medonho e um tanto tenebroso. Antigamente, o local era de mata fechada e não dava para se aventurar por lá, porque era arriscado e qualquer surpresa poderia ser encontrada no meio do mato que cobria os fundos do estabelecimento de ensino.

A história se passou com um dos vigilantes que trabalhava na escola. Em um dos serviços noturnos, um homem de aparência muito tranquila e fria passou pelos corredores, parecia alguém que queria informações; era coisa impossível de acontecer naquele instante.

- Perguntou o vigia, o que queres?

- Mudo, permaneceu o homem.

Depois de umas três indagações, como se fosse um vulto no meio da noite, sumiu a criatura. Seguiu o guarda com passos largos, quase correndo e arrepiado – se pelando de medo. Quando foi empurrado e ao cair no chão, com o corpo estremecido do tombo, olhou e não viu mais nada.

Mas, por quem o homem foi empurrado?
Ninguém conseguiu responder a esse questionamento.

Os comentários ainda ecoam nos cantos da escola e outros relatos são contados por muita gente: as peripécias e molequices do menino da bomba d’água, que aparece com uma mochila nas costas, vez por outra; do garoto travesso, que misteriosamente surge e salta de cadeira em cadeira, e para a mesa – onde os professores faziam as suas refeições na cozinha da escola; de um ex-aluno que morreu afogado em um bueiro das proximidades (o detalhe é que ele havia saído da escola); por último, a história de outro vigilante que deu um tiro em um vulto misterioso que rondava no pátio do estabelecimento de ensino. Além de tudo isso, vozes e gritos podiam ser ouvidos no calar da noite.

Lendas urbanas sempre existiram. Isto é uma assertiva verdadeira. Eventos de natureza assustadora ocorrem em épocas distintas e todos eles trazem consigo os seus medos e horrores, intrínsecos a cada categoria de aparição.

No contexto, Recife não é muito diferente das demais cidades do nosso imenso Brasil. Todavia, por muito tempo rondaram na Escola Estadual muitos seres de outras dimensões, e dentre tantas assombrações havia uma personagem bem esquisita, a Perna Cabeluda. Podia-se questionar, porque possuía características que o próprio nome a descrevia e ao mesmo tempo era um ser vivo e horripilante.

- É possível? Perguntou Guilherme.

Enquanto os outros meninos não davam uma palavra, apenas prestavam atenção nos relatos.

- Na imaginação, é claro que sim! É surreal. Respondi.

Aquilo tudo arrepiava e dava um medo danado. Talvez fosse um ás nas mangas da direção da escola, para que os alunos não matassem aulas e perambulassem pelos corredores e banheiros silenciosos do colégio.

Outra figura interessante e medonha era a Mulher do Algodão. Esta sim, somente em imaginar ser abordado por aquela criatura sinistra, já era o suficiente para borrar as calças. Daí então, ninguém queria aventurar-se pelos cantos da escola nos momentos em que as salas de aula estavam em atividade.

A Mulher do Algodão surgia a qualquer momento, pálida e trajando um longo vestido branco com véu. Por ser de alguém que moerreu, possuía dois tufos de algodão, um em cada orifício do nariz.

O tempo passou depressa e as lendas de fantasmas acompanharam o desenvolvimento das novas tecnologias, refletidas nos efeitos especiais e cinematográficos dos filmes de terror. Mesmo assim, não importam serem hologramas ou constarem em fotografias digitais capturadas de equipamentos ultramodernos, pois fantasmas são fantasmas e permanecer em lugares sombrios, constitui verdadeiro desafio.

Quem vai querer ficar sozinho na madrugada, em corredores de velhos hospitais, bibliotecas, escolas e antigas construções públicas?

Por fim, jamais me deparei de verdade com uma assombração daquelas, que alimentaram e alimentam mentes inocentes.

Momentos como aqueles foram únicos em nossas vidas e, sempre que possível, devemos resgatá-los e revivê-los por meio dos contos de histórias de roda, que para muitos se tornam um alento e um resgate nostálgico dos tempos vividos.

Até bem pouco tempo me questionava sobre o que poderia ter ocasionado aquele susto, lá na cerca de avelós. 
 
Disponível no site Enseada dos Pensamentos

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