quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Clarinha e João




Clarinha e João
(Gleidson Melo)

Meiga e de olhos azuis, brilhavam como esmeraldas em noites enluaradas. Filha de uma família abastada, ela repousava em um belo berço de madeira. Numa calmaria só, o canto dos pássaros tranquilizava os corações daqueles que viviam num dos vilarejos do distrito de Terra Nova, uma bela cidade que hoje faz parte do Patrimônio Histórico do país.

E foi num clima convidativo a um romance, digno dos mais apaixonados e sonhadores, que nasceu Clarinha. Época em que se podia ouvir o apito do trem; quando os vagões traziam os mais ilustres passageiros vindos do Sertão, no início dos anos sessenta. Nove anos mais tarde, era noite de reunião entre amigos e algo estranho aconteceu na casa de Altino e Manoela, os pais da menina Clarinha - nada fora do compasso - seria apenas um indício de que algo fugiria do normal e caminhasse para o sinistro.

- Linda menina!

- Altino veja quanto mimo ela tem.

- Qual a idade da princesinha?

Elogiou e questionou Marília, a esposa de Emerson.

Sem responder, a garota correu em direção ao terreiro, abriu o portão de madeira e sumiu no milharal.

- Nossa! Exclamou Emerson.

- Nada demais, ela sempre faz isso quando chegam as visitas. Explicou a mãe da menina.

Altino e Manoela não estavam nem aí para o que aconteceu. Apesar de viverem bem, mal cuidavam dos sete filhos, dos quais Clarinha era a mais nova.

- Não se preocupem, ela é pequena e sabe se virar sozinha. Disse Altino.

- Vixe, alguma coisa me dá arrepios. Comentou Marília.

- Deixe de besteira! Respondeu Emerson.

Assim, num ambiente familiar, em poucos instantes ninguém se lembrava de mais nada. O casal se despediu lá pelas dez da noite, quando as raposas aproveitavam-se no galinheiro e as corujas repousavam nos mourões das cercas.

A menina chegou durante a madrugada e sorrateiramente, sem que ninguém percebesse entrou e foi dormir. A mocinha tinha uma rotina diferente; sempre brincava sozinha e montava cenários de horrores com as bonecas e brinquedos. Um requinte de maldade e crueldade ganhava espaço entre doçura e aparente meiguice.

No período dos festejos de São João, os primos e primas da cidade chegaram para deliciarem-se das comidas feitas com milho. Até hoje as famílias do interior do Nordeste do Brasil passam horas preparando canjica e pamonhas para a grande festa tradicional.

Paulinho, o mais velho dos meninos, vestia calção folgado e camisa de chita florida, menor que o seu tamanho - era o mais abusado de todos. Afonso, o mais novo, gostava das brincadeiras próximas à fogueira. Naquele tempo, amanhecia-se em volta do fogo e assavam-se milhos até o braseiro acabar.

Aninha e Mariinha gostavam de fofocar - parecia ser uma herança de família. Noite de 23 para 24 de junho, três minutos para meia-noite e ninguém conseguia parar de pé. Era evidente o cansaço nos olhares pesados. Não fosse pra menos, imaginar o empenho dispensado pelas famílias imbuídas no preparo das delícias. Depois de algum tempo, em pleno momento de distração, Clarinha e Afonso sumiram, sem que ninguém percebesse a falta.

- Deixa de ser molengas, vamos brincar lá fora, tenho uma surpresinha pra você.

- Se eu for mamãe vai me dar uma surra e não gosto de apanhar.

Assustado, Afonso aceitou o fúnebre convite. Como sempre, os pais não perceberam e não deram por conta, porque já estavam no segundo sono. No dia seguinte, uma grande tragédia aconteceu e o menino foi encontrado no açude, mortinho da Silva, enquanto Clarinha dormia tranquila em seu belo quarto, repleto de brinquedos.

A santinha, bem quieta, parecia sonhar com anjos e fadas. A morte de Afonso, com certeza não foi um simples afogamento causado por tagarelices às margens da lâmina d’água. Contudo, o choro e a comoção tomaram conta do povoado por um bom tempo e um enigma pairava no ar. Um ano depois, os casais de amigos mais chegados reuniram-se novamente e Marília e Emerson trouxeram o seu primogênito Maurício, mesma faixa etária de Clarinha. Foi quando ao passar pelo velho portão de madeira, a mãe do menino sentiu um arrepio e um nervosismo tomou conta do momento.

- Tudo bem, Marília? Perguntou Manoela.

- Sim, sim! Deve ser por causa do frio da noite.

Pensativa, não deixou o filho arredar os pés e o manteve bem próximo de si. Mais uma vez Clarinha desapareceu, dessa vez pra sempre e sem deixar rastros. No dia seguinte, com o fogaréu que tomou todo o milharal, apenas fragmentos de tecidos foram encontrados no local. O mau presságio de Marília devia ter sido uma predição das misteriosas aparições que jamais deixaram em paz os moradores daquele distrito, e que ainda hoje vagam na calada da escuridão.

Na penumbra, surge uma menina de olhos azuis e vestida com capuz branco. Ora, com episódios de sumiços e mortes inexplicáveis de crianças; ora, envoltos de mistérios que somente Clarinha poderia explicar. Em volta do lugarejo o distrito se desenvolveu, mas carregou consigo uma lenda. Todavia, no local dos acontecimentos, do pouco que restou, três casas de taipa resistiram ao tempo.

Vinte anos mais tarde, nas proximidades do distrito de Terra Nova, vários acontecimentos deixaram os moradores com ar de pavor. Para a família de João não seria diferente. Tudo começou quando ocorria uma grande festa junina; comemoravam-se as dez primaveras dos gêmeos, Liminha e Luizinho. Até hoje as comemorações e festejos ocorrem de forma prazerosa e satisfatória.

Em meados dos anos oitenta não existiam recursos e brinquedos tecnológicos, tais quais vemos hoje em dia. A festança seguia de vento em popa, enquanto a criançada se divertia com o que tinha de melhor. Foi instalada uma máquina de play time com aquele joguinho das abelhinhas, o space ivaders. Os alienígenas ficavam girando na tela, e na base do monitor aparecia um canhão controlado pelo jogador ou dois jogadores. Tentava-se aniquilar os insetos espaciais e quando todos eram destruídos, passava-se de fase e o jogo tornava-se ainda mais divertido.

As meninas da época gostavam de namorar os rapazes mais velhos. Em festa de São João ficava ainda melhor. Normalmente, uma donzela de onze anos buscava o seu príncipe encantado, entre quinze a dezesseis anos e tudo era propício para viver um belo romance.

Em verdade os velhos tempos rondam a mente e trazem boas recordações; ainda consigo lembrar com perfeição dos beijos ardentes de Maria. Em meio à alegria dos gêmeos e convidados, João, por um longo período sumiu e a sua falta fora percebida pelos pais, somente no final da festa, quando o pessoal se despedia da família. Podia ter sido um evento casual, mas também poderia estar relacionado com o misterioso sumiço de Clarinha.

- Alguém viu o meu filho João? Desesperada, a mãe perguntava a todos.

- Temos que encontrá-lo. Preocupado, recomendou o pai do garoto.

Dora, a mãe, ainda apavorada, juntou-se com o esposo Silas e alguns curiosos e saíram a procurar o jovem rapaz de onze anos de idade. Lá pelas duas da matina o menino foi encontrado no meio do milharal. Ao seu lado, focado por uma lanterna, havia um crucifixo e uma coberta.  João simplesmente permanecia em estado profundo de ausência de si mesmo. Em seguida, acordou e não se lembrava de mais nada.

- Meu filho, mamãe te ama. Correu em direção do menino e o abraçou.

O mistério pairou no ar e até hoje ninguém soube as causas daquele sumiço do jovem rapaz. Os moradores da vila eram medonhos e acharam melhor não reproduzir comentários sobre o assunto.

Talvez fosse à custa de sofrerem ameaças de algo inexplicável, porque naquela estação havia muitas crianças com a mesma faixa de idade.

- Vamos levá-lo pra casa. Disse Silas.

- Ele deve estar muito mal. Completou Dora.

Prontamente, levaram o menino para o aconchego do lar. Por dois meses, eventos da mesma natureza ocorreram com frequência e certo dia João desapareceu e foi encontrado na casa da árvore. Seguidamente, por mais três vezes o acharam vagando na estrada de terra, próxima do vilarejo. O menino parecia um zumbi. Noutro instante, estava em cima da sepultura do seu avô. Em suas mãos, margaridas que havia subtraído do túmulo de um antigo amigo da família, falecido nos idos de setenta. Certamente, as flores não valiam muita coisa, porque eram de plástico envelhecido pelo tempo.

Profissionais de diversas áreas da saúde e do credo religioso foram chamados para solucionar o estranho caso e ninguém conseguia desvendar o que rondava a vida do garoto. Enquanto especulavam-se várias ocorrências misteriosas da região, a mais provável recaía sobre Clarinha, a menina desaparecida num incêndio.

Em uma das crises existenciais o menino deparou-se com algo inexplicável, do qual jamais se ouviu falar. Era momento difícil e ninguém podia ajudá-lo. Acredite, foi o que restou de João, uma criança estranha e com ares de tristeza no semblante:

- Mudo, João guardou pra sempre o grande segredo da sua vida. 
 
Disponível no site Enseada dos Pensamentos

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