quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Branca Dias





Branca Dias
(Gleidson Melo)


Na penumbra da noite pairava um ar de mistérios, enquanto o momento sombrio combinava-se com o luar. Há tempos, na capital pernambucana, viveu uma figura ilustre e de marcante personalidade. Muito rica, o seu nome ecoou nos desertos das almas e atravessou gerações.

­Era uma vez uma Sinhá de Engenho.

No Zoológico da cidade, Parque Estadual Dois Irmãos, muitas histórias medonhas são contadas acerca dos mal-assombros que vagueiam pela escuridão. Contam que o chalé da prata, uma construção moderna e edificada à beira do lago, ficava a casa da mais temida daquele lugar. A porção de água recebeu esse nome devido a um acontecimento, ainda na época das perseguições aos judeus, por volta do século XVI. Dizem os mais velhos que Branca Dias era uma mulher judia e naquela ocasião havia sido procurada pela inquisição.
 
Reza a lenda, para que não deixasse nada para ninguém, atirou toda a sua valiosa prataria no lago. Mesmo assim, em Portugal, a coitada foi condenada à fogueira.

O lago e a casa ficam por detrás do monumento do “Menino do Pirulito”. Existe naquele lugar a história de uma criança que todos os dias jogava futebol com outros meninos do bairro, no local onde fica a “Cidade das Crianças”. A diversão era perigosa, porque a molecada não tinha limites. Certo dia, a bola caiu no recinto do leão.

 A tragédia aconteceu quando o menino que vendia pirulitos de açúcar caramelado, em seu tabuleiro, movido pela sedução do jogo, entrou no recinto para buscar a bola de futebol e fora devorado pela fera.

Tudo isso contribuía para deixar o clima numa atmosfera envolvente e de arrepiar. Quanto à Branca Dias, os relatos correm em boca miúda, principalmente daqueles que trabalham e pernoitam no parque.

Eu mesmo pude presenciar algo que jurava ser um homem sentado e todos que me acompanhavam nas atividades do “Zoo Noturno”: visitantes, estudantes e universitários, tomaram o maior susto. Seguíamos para a observação do comportamento dos bichos durante a noite. Era o momento ideal, porque os mamíferos permaneciam mais ativos durante o período noturno.

Todas as pessoas que estavam comigo puderam ter a mesma sensação horripilante:

- Nossa, André, você viu isso? Interpelou Cristina, a colega.

- Onde! Perguntei com muita tranquilidade.

- Naquela direção, próximo à entrada da trilha, bem ao lado do recinto dos leões. Comentou Romeu, o mais apavorado de todos.

 Até aquele instante, parecia real, mas tudo era fruto da imaginação. Com certeza, há quem acredite em coisas do outro mundo.

A ocorrência seria um fantasma ou apenas uma peça pregada por um dos monitores do Zoo Noturno. Mas, quem iria querer se passar por uma aparição?

- Conversa para boi dormir, dizia Magali, a coordenadora da atividade.

- Nada disso, seu Wilson quase enfartou no último Zoo Noturno, comentou Cristina.

Foi com ar de zombaria que alguém gritou lá dos fundos:

- Desse jeito até os macacos irão passar a noite em branco.

Fiquei à espreita e sem comentar mais sobre o assunto, apenas observava e tentava compreender o terror que se instalou naquele instante. Logo, a calmaria voltou, porque não passava de um tronco de árvore com a projeção da sua sombra ao chão.

Como forma de inquietação, minutos antes, alguém havia contado uma história medonha. Descobri que as assombrações de Branca Dias aparecem quando alguém inicia o ritual de contos das suas desventuras do passado.

Então, dizem que a regra é não falar o nome da tal mulher, pois quem estiver na mata ou próximo a ela (era o nosso caso), essa fecha-se, porque lá dentro, tudo poderia acontecer.

- Credo! Dá arrepios, só de imaginar. Critiquei com ar de pavor.

Também, há quem diga que ela surge apenas para salvaguardar as suas riquezas depositadas no fundo do lago. Assim, como acontece com as maldições que até hoje rondam as botijas enterradas com tesouros, resultados de muita avareza e discórdias entre famílias.
 
Antigamente, em épocas juninas, e principalmente nos festejos de São João, à beira de uma fogueira colocava-se uma bacia com água (ainda cultiva-se essa tradição) ou observava-se sobre a película espelhada d’água de um riacho. Podiam-se fazer adivinhações e até mesmo conseguir um grande amor por meio dessas simpatias.

Os mais velhos contam que uma Sinhazinha, em seu ritual mágico, ao olhar profundamente para dentro de um rio daquelas redondezas, desapareceu ao receber um chamado e nunca mais foi encontrada.

Confirma a lenda, que à beira do Lago do Prata e nas proximidades da mata, surge em noites de luar uma mulher chamada Branca Dias e outra que não se sabe o nome, mas que, com certeza atormentam e tiram o sossego de muita gente do bairro Dois Irmãos.
  
Disponível no site Enseada dos Pensamentos

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