sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Existe um Caminho



Existe um Caminho
(Gleidson Melo)

Santa Felicidade, uma cidadezinha no interior do Brasil. Há dezoito anos nasceu Francisco, nada a mais, além dos seus três quilos e oitocentos gramas de pura saúde. Olhos bem abertos e de cabeça pelada, recebera duas palmadas da Doutora Márcia e aplausos de toda uma equipe. 

- Lindo bebê. Comentou, enquanto limpava o menino e cortava o cordão umbilical. 

- Que maravilha de menino! Emocionada, enfatizou a enfermeira.

 Tudo era fotografado e passava pelas lentes de uma das convidadas que chegou para assistir o parto. Magali era uma velha amiga de família. Estava ali somente para registrar os melhores ângulos, só para ninguém ficar chorando.

O seu pai Josué era simples no modo de agir – um jovem de vinte e dois anos – três anos mais novo que a sua esposa Catarina. Olhos embebidos de lágrimas; não se continha e acompanhava tudo através de uma janela de vidro. Ele e a família assistiam cada passo do evento, enquanto os murmurinhos dos corredores traziam a grande notícia da noite. 

- Nasceu um menino lindo!

- Um lindo bebê!

 Extasiada, Catarina nem se mexia. Coitada! Talvez pelas dores do parto ou por ter ficado radiante pelo sublime instante. Com tantas luzes e elogios em sua volta, restou-lhe ficar paralisada com a situação. 

Emoção? 

Quem vai saber?

Uma coisa era certa, as lágrimas indicavam que algo de especial acontecia naquele hospital. 

- Mãe, está aqui o seu príncipe encantado.

Entregou o bebê e elogiou a Doutora!  

Era o menino envolto por uma coberta macia de cor verde bem clarinha. 

- Dê-lhe o peito.

 E Francisco mamou até ficar em tons roxeados. Tudo era motivo de festa e todos celebravam mais um nascimento na Maternidade Futuro. Logo, passou a ser chamado pelo codinome Chiquinho, em homenagem ao seu avô nordestino, por parte do pai.

No início era mágico e o relacionamento do casal fluía às mil maravilhas. Josué, um carioca esperto, com o passar do tempo, a cidade maravilhosa lhe esperava a cada dia de confusões. Não era para menos, os seus parentes e amigos moravam distantes da cidade de nascença. Os dias pungentes projetavam os seus pensamentos para além da longa estrada. 

Catarina se descompensava com as ofensas que fazia: 

 - Homem imprestável! 

- Vai embora e me deixa em paz. 

- Infame! 

- Não aguento mais essa situação.

 O que ela não entendia era a verdade de que todas as coisas precisavam acontecer no momento mais propício. Quando queria um vestido, por exemplo, queria "aquele vestido". 

Murmurava Josué:

 – Não consigo dar conta de tantas responsabilidades, devemos planejar o orçamento.

A situação mais crítica entre o casal ocorreu num dia de decisão no futebol brasileiro Assistiam um dos grandes clássicos da região – o placar marcava Grêmio 0x2 Internacional – e Chiquinho e o seu pai estavam vestidos com as camisas dos seus times favoritos. Embora perdendo para o arquirrival colorado, não paravam de torcer. A esposa (do contra) usava vermelho e branco. 

Ela preferia agir com as vozes da razão e muitas palavras eram jogadas ao vento. A mulher impingia o mal para tudo e todos. Enquanto a emoção, sequer passava por perto daquela barra de saia e sempre buscava acreditar que o mundo deveria girar, único e exclusivamente, para si. 

Era pura falta de sensibilidade e egoísmo à flor da pele. Enfim, o jogo congelou com aquele placar e com a disputa por desejos e vontades de Catarina.

Paralelo ao turbilhão de acontecimentos, o emprego de Josué proporcionava-lhe a realização de concursos de remoção (já estava com as "cartas nas mangas", é claro!), o que lhe constituía uma verdadeira válvula de escape. 

Em uma das brigas, exclamava:

- Vou embora! 

- Cansei de passar por situações! 

Prontamente, acabou por arrumar as malas (as suas malas já estavam quase prontas e a espera de um momento certo). 

Seguiu o seu caminho e foi parar em sua terra natal. 

O pai fez tudo o quanto era possível para levar o menino consigo e mesmo assim, ouvir muita coisa:

- Um dia você vai se arrepender.

- Miserável!

 No entanto, do que valeria amar uma pedra? Foi quando, aos quatro anos de vida, Chiquinho amargou a dor da separação dos seus pais. 

Sem calar, dizia repetidamente: 

- A culpa foi minha.

 E todos os dias era a mesma ladainha:

- Cadê o meu pai? 

- Foi pro céu? 

- Aonde ele foi?

Ficaram desolados, Chiquinho e a sua mãe. Pouco a pouco as notícias se desencontravam e a cada dia era um dia de sorte para o simpático menino. Tragicamente, a jornada da vida mal começava a dar os seus primeiros passos, rumo para um futuro totalmente desconhecido. A vida ia seguindo o seu percurso e a constituição familiar foi esfacelando-se aos poucos. 

Uma vez ou outra, o menino escapava para a rua e lá passava o dia a perambular. Quando era noitinha a mãe o chamava e lamentava:

- Chiquinho passe para dentro, já é noite! 

- Seu pai foi embora e nos deixou sem nada. 

- Que infelicidade!

Era a mesma súplica diária, e complementava o discurso:

 - Que miserê!

 Com aquela infância sem lei, o coitadinho não compreendia muito bem o que se passava - não se fazia nada e Chiquinho seguia seco.

Catarina resolveu que deveria apaixonar-se e casou-se com um homem de trejeitos esquisitos e de olhares profundos. A vida é feita de escolhas e o amor às vezes é cego. 

Catarina se transformou numa criatura totalmente descompensada e não conseguia enxergar um palmo à frente do seu próprio nariz. Valdinho, o padrasto do menino, nunca conseguia se estabelecer na vida. Trabalhava naquilo que lhe garantia alguma gorjeta, que mal dava para o próprio sustento, quiçá de uma pequena família. 

Desconcertados, igualmente ao relacionamento anterior, o casal não parava de brigar. Nada se podia fazer e ninguém da família tomava partido. 


- Em brigas de marido e mulher não se mete a colher.

A mesma história se repetia e enquanto isso, Catarina não passava mais que dois anos com o mesmo relacionamento. 

A instabilidade de convivência familiar em sua vida era iminente. 

Devido às péssimas condições, em todos os aspectos, a Catarina resolveu levar Chiquinho para uma casa de sítio, distante de Santa Felicidade - que já era interiorana – na condição de morar com os avós. O seu avô Jacinto era um homem durão e mais grosso que "papel de embrulhar pregos" e não tinha um senso agradável de pai (certo de que ninguém substitui um pai). Mesmo assim conquistou o seu netinho Chiquinho. 

Dona Margarida era uma mulher de meia idade, pele morena e de personalidade bem forte, mas com um coração grandão (toda avó tem um coração do tamanho de um trem), que conquistava o menino com os seus mimos. 

Agrados à parte, os momentos da infância de Chiquinho foram marcados por dias de muitos trabalhos no campo. Mas, o bom de tudo é que ele não chegou a abandonar os estudos, por recomendação dos seus avós e das aspirações do seu pai.

Sempre havia alguém que dizia: 

- Seu pai era um catedrático, uma pessoa de estudos e letrada. 

Tudo, porque Josué era apaixonado pela escola e estudos. Mesmo sem entender a verdadeira causa do rompimento dos laços de família, Chiquinho sentia muita falta do seu pai. 

A saudade era maior quando se comemoravam na escola o Dia dos Pais.
Simplesmente o pai de Chiquinho não aparecia.  

O menino com ar de tristeza, perguntava para a professora: 

- Tia, o meu pai vai chegar? 

Olha filho, respondia a tia Zezé:

 – Fique calmo, um dia ele volta.

Mesmo assim, os presentes eram levados para casa. Coisas simples, construídas com papel, cola, tinta guache e muita criatividade. E desse modo, acontecia com as outras datas mais importantes da folhinha: Natal, Ano Novo, Páscoa e Dia das Crianças. 

Com certeza, a culpa não poderia recair totalmente sobre as costas de Josué. Quando podia, ele telefonava para o filho. Embora, na maioria das vezes, acontecia de não completar a ligação, porque as torres de transmissão de sinais para telefones móveis eram precárias, enquanto os aparelhos da época pareciam caixas de sapatos e possuíam antenas, totalmente diferentes dos smartphones dos dias atuais.

Aos poucos, a imperiosa marcha do tempo ditava a formação da personalidade de Chiquinho, que por sinal era muito forte. Todavia, a revolta com o seu pai tornou-se notável e constituía um verdadeiro coquetel de rancores.

Aos doze anos de idade a vida de Chiquinho começava a se transformar de forma inexplicável. Momento em que o seu Jacinto e dona Margarida deixaram a lida do campo e foram morar em Santa Felicidade. 

- O menino precisava respirar o ar da cidade, diziam os avós. 

Logo, a permissividade se tornou marca registrada da família. 

Bem-vindos, de volta à civilização. Chegaram com a cara e a coragem. O avô, quase um aposentado rural, entregou-se à bebedeira. 

Dizia o homem nos dias de profunda e total desilusão:

– Que tenho a perder?

 – Que levarei dessa vida, senão as amarguras? 

Ele não conseguia parar de sorver a sua pinga um instante. Chiquinho, na cidade, mesmo cambaio continuou os seus estudos. Aos treze anos reencontrou novamente o seu pai. Josué cheio de saudades foi visitar o seu rapaz  (um pai nunca se esquece do filho). Encontrou o menino numa situação muito difícil e com sintomas de angústia guardada no peito. 

De cara, Chiquinho lhe questionou:

- Tu és o meu pai? 

- Esperei muito por esse momento. 

- Vieste me buscar?

 O pai respondeu que sim. 

- É claro, meu filho.

- Um pai jamais vai se esquecer do filho.

- As circunstâncias da vida me levaram para bem longe daqui.

Envolto ao mistério, cercavam algumas condicionantes que percorriam os sentimentos. Não ia ser tão fácil resgatá-lo, porque naquele momento alguns fatores pesaram sobre a decisão. A mãe não poderia perder o rendimento de pensão que ganhava de forma tão fácil. A avó e o avô que cuidaram o tempo todo do neto, não queriam deixá-lo partir. E agora? Os sonhos de Chiquinho não passavam de poeira ao vento. Mas, a vida que era difícil poderia ficar melhor do dia para noite. As investidas do pai não obtiveram o sucesso desejado. Depois disso, nunca mais se ouviu falar de Josué.

Com o coração ferido e a desilusão do desafeto, o menino se tornou ainda mais uma pessoa amarga. Por conta, sem limites de obediência, ninguém conseguia segurá-lo. Sumia por três dias e aparecia sujo, desarrumado e com fome. 

Sem controle e regras, era um andarilho e se metia sempre em confusões. Pagou-se um alto preço por tudo isso. Os estudos foram consumidos e restou-lhe a falta de conclusão do Ensino Fundamental e de uma vida de futuro certo. Chiquinho partiu para o mundo e para os desafios da vida.

As suas lembranças de molequices podiam vagar na memória: o cavalo corisco, o banho de chuva e contos de histórias na claridade do candeeiro, ainda quando morava no interior do interior. A luz elétrica, é claro, existia há muito tempo. Contudo, a precariedade de manutenção é quem dava as caras de vez em quando. O clima lá de fora era outro e os vaga-lumes com os seus lampejos enfeitavam a atmosfera rica e saudável.

Aos dezoito anos os sonhos de Chiquinho afundaram-se na lama da ignorância. A vida escapava por entre os dedos e o rapaz soltou-se mundo afora. Definitivamente perdeu o contato com seus pais, parentes e amigos da velha infância.

Chiquinho seguiu o seu destino e rumo em direção ao desconhecido. Sem tempo, no alento e condenado por suas atitudes, passou a viver nas ruas; não possuía um lar e uma família que o edificasse. Abandonado, tornou-se um farrapo humano.

A sua origem passou a ser completamente desconhecida e aos vinte e três anos continuava às margens da sociedade. 

Nessa fase da vida passou a atender pelo codinome Chulé, o Zumbi da Feira. Ele fazia da calçada a sua cama de solteiro e quando chovia, parava embaixo da marquise da loja de calçados.

A comida era disputada com os pombos, que instintivamente sabiam exatamente o horário do almoço. As aves eram mais rápidas e o tempo não era o suficiente para resgatar o alimento jogado no lixo. A fome fazia doer o estômago e a sensação de abstinência das drogas era de enlouquecer. 

Chiquinho conseguia um troco no estacionamento, mas, as moedas recebidas eram acumuladas em seus bolsos imundos e todo o apurado cumpria um único destino.

O apelido Chulé deveu-se à fedentina exalada dos seus pés, e quanto ao título de Zumbi da Feira, este se deu pelo motivo do estado de alienado, por conta do crack que o consumia. 

Dizem que a vida é feita de escolhas e cada um é responsável pelo próprio destino, isto é, para aqueles que acreditam em destino. Em verdade, o destino existe para quem busca um objetivo certo na vida. Os sonhos podem ser ilusões e uma meta a ser alcançada não se constitui em apenas delírios emocionais. 

A vida prega muitas peças e a jornada diária pode tornar-se um verdadeiro suplício, quando se trata da busca pela própria sobrevivência.

Quanto ao cerne da questão, relativa à temática do viciado, do coitadinho ou do indefeso, levada a cabo, seria o suficiente para resolver o problema de Chiquinho?

Ora, interná-lo em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos poderia ser a solução. Quem vai saber? Nas ruas, o mundo é cão e a roda da vida gira sem saber aonde vai parar.

Um pão francês com manteiga de manhãzinha, regado a um delicioso café com leite seria um grandioso presente para quem padece nas calçadas. Certo de que algumas pessoas não têm opções, porque foram abandonadas por parentes; enquanto outras escolheram viver ao léu e não conseguiram mais retroceder e retornar ao seio da família. Para muitos, afinal, escolhas são escolhas.

Domingão de manhã e Chiquinho foi surpreendido por um grupo de pessoas em sua volta. Estava com o corpo trêmulo e não dava para dizer o motivo – frio ou efeito dos alucinógenos? Elas faziam parte de uma "Organização Não Governamental", cuja finalidade focava na libertação de dependentes químicos.

   O moço foi levado para uma fazendinha para tratamento de dependentes químicos. Inicialmente, sentado, bem quieto e cabisbaixo, lá estava Francisco, bem magrinho e de boné com a pala voltada para trás. Enquanto isso, a cena era profundamente chocante. Um nó na garganta e coquetéis de emoções podia invadir o peito e a mente de qualquer pessoa. 

O choro era contido em milésimos de segundos e todos permaneciam perplexos. Era o momento de mais uma reunião da comunidade terapêutica para dependentes químicos, afastada da vida urbana. 

   Ao redor, formando um círculo de pessoas, dava para perceber que outros rapazes de pouca idade, também participavam da sessão. Bem atento às apresentações, chegou a sua vez, e infelizmente a mesma história cruel e de desafeto familiar se repetia.  

Aparentemente, sem pai e mãe, ele havia sido resgatado em meio a um território sem lei, onde reinava a violência e todo o tipo de dependência química podia ser visto, incluindo-se maconha, crack, álcool, pasta-base de cocaína e muitas outras combinações de drogas. Chiquinho era usuário de crack, da mesma forma que a maioria dos dependentes da comunidade terapêutica. 

Com muita vergonha e timidez estampada no semblante, o moço se apresentou para o grupo.

- Meu nome é Francisco e muito cedo saí de casa;

- Nas ruas, conheci muitos meninos da minha idade que gostavam de usar drogas;

- Primeiro, comecei a fumar cigarros e depois experimentei maconha;

- Queria algo mais forte e comecei a usar crack.

- E como você chegou até aqui? Perguntou Armando, o instrutor da casa que conduzia a reunião.

- Morava na rua, sabe? 

- E não conseguia parar de usar drogas.

  Na oportunidade, muitos relatos surpreendentes foram contados e logo após a apresentação foi proferida uma palestra que enfocava os malefícios de cada tipo de droga. Buscou-se deixar bem claro para todos os participantes que a dependência química pode destruir os lares e as famílias. Sendo, a falta de amor à própria vida, uma marca registrada de quem é usuário químico. 

Certamente, na abstinência os usuários são capazes de fazer qualquer coisa para a obtenção da droga, até mesmo prostituírem-se, não importando o sexo, nem a idade; e cometerem furtos dos bens da família, principalmente celulares, joias, máquinas de lavar e micro-ondas.  Além disso, retirarem o sossego dos pais e dos parentes.  

O grande propósito e o desafio dos internos era o de poder colocar todo o mal e aflições nas mãos de Deus. A fé libertou muita gente das drogas, naquele lugar. 

Com o tempo e muita dedicação, Chiquinho trilhou um rumo certo e tornou-se um dos líderes da ONG que o acolheu. Hoje,  dedica-se ao resgate de vidas consideradas perdidas para as drogas. 

Disponível no site Enseada dos Pensamentos

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