segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Contos de Vida



Contos de Vida
(Gleidson Melo)
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Um lar de idosos é um cantinho muito especial, onde podemos refletir sobre as nossas vidas e praticar exercícios de solidariedade. Pude perceber isso quando fui a uma das atividades de voluntariado no Lar Prosperidade. Na ocasião desenvolvia uma proposta recreativa com animais do zoológico. A atividade constituía-se em transformar balões compridos em animais: poodles, serpentes e tudo o que pudesse ser imaginado.

Foi apresentado o Igor, uma bela e dócil iguana e a Juju, uma enorme jiboia. Eram animais incapazes de machucar alguém. Naquele instante, um senhor chamou atenção, pois estava concentrado e de cabeça baixa. Mas, somente depois de alguns minutos percebia-se que tratava-se de uma de uma pessoa que nada enxergava. Contudo, o homem estava concentrado e atendia aos comandos do instrutor para a montagem dos bichos. A emoção dominava o ambiente, pois mesmo diante das dificuldades, orientado pelas palavras, conseguiu fazer uma linda obra de arte.

No abrigo ouvimos muitas histórias de vida, dentre elas, o relato de dona Rosália, que fez um belo resgate da sua trajetória. As boas lembranças do passado, também chamadas de saudades, trazem alegrias. Ao contrário, nos deixam tristes. Quanto ao futuro, não sabemos com certeza aonde vamos chegar.

Pescar no açude e depois fritarmos os peixinhos no braseiro era uma farra. Naquela época, até o sal era difícil de ter em casa e quando a fome apertava, às escondidas, farinha de mandioca seca com água solucionava o problema.

- O meu nome é Rosália e tenho setenta e cinco anos. Morava numa casa humilde, construída a pau a pique – um mocambo pequeno com dois quartos, sala, cozinha e piso batido de barro vermelho –, com um banheiro do lado de fora.

- Eu, a minha mãe Glória e as irmãs, Celeste, Vitória e Florinda, sobrevivemos diante de situações de miséria. Leite não existia, e quando acabava a farinha com sal íamos apanhar frutinhas vermelhas no mato para saciarmos a fome.

- Aos oito anos fui a primeira das irmãs a conseguir um emprego em casa de família. Logo, comprei uma panela de barro para a minha mãe. Um ano mais tarde, Celeste, Vitória e Florinda foram trabalhar e seguiram o mesmo destino.

- Aos poucos, fomos erguendo o lar e todo mundo admirava o nosso esforço, pois éramos fortes e não desistíamos diante das dificuldades.

Felizes, passamos a comer bacalhau. O peixe não era tão salgado como os de hoje, mas, era uma delícia. O charque, quando possível, trazia para uma saborosa refeição, feita om farofa e café. O alimento, pobre em nutrientes, deixava a nossa pele bem amarelada.

- Mamãe não ficava parada e sempre lavava roupas pra fora. Lavava e passava em ferro aquecido a carvão. Ainda me lembro do cheiro da fumaça que invadia o ambiente e deixava tudo num clima majestoso, próprios da infância. Até posso imaginar, sentir o calor e ouvir o estalido do carvão no fogo.

- Vivendo em um período de complicações políticas, nem todo mundo podia sair de suas casas, porque a Liga Contra Mocambos derrubava as moradias. Os casebres eram construídos clandestinamente e o dinheiro insuficiente, não dava para comprar cercas. Então, tomamos um espaço muito pequeno.

- Perto de casa morava um casal de vizinhos, a dona Anália e o Seu Moacir. A mulher não era uma pessoa muito boa, o quanto parecia ser. Antes de conseguirmos emprego, quando chegava à nossa casa, esnobava e questionava:

- Hoje eu comi muito feijão com charque e farinha.

- O almoço estava uma delícia!

- Tem muita gente por aqui com fome, não é mesmo, Comadre Glória?

- Humildemente e de barriga vazia, a minha mãe respondia:

- Não, Senhora, ao menos por aqui ninguém passa fome.

- Não é mesmo, Rosália?

- Respondi com ar de tristeza no coração, pois a nossa mãe nos orientava a dizer que estávamos bem alimentadas, mesmo que os nossos estômagos estivessem colados nas costelas. Tudo isso para que não fosse dada muita satisfação da situação na qual vivíamos.

- Em verdade, o que a vizinha fazia conosco não era brincadeira.

- Nada faltava na casa de dona Anália, isto é, até o momento em que passaram a morar com um casal de amigos. Era o fim da picada e tudo foi por água abaixo quando o esposo abandonou o lar, porque não suportava os novos moradores indesejados.

- Depois disso, como diz o dito popular: “alegria de pobre dura pouco”, à penúria, a coitadinha foi esmorecendo até sucumbir. Dona Alzira e seu Zacarias, um casal desconcertante. Eles tomaram conta do lar e, tão logo expulsou-a, sem direito a levar nada, ao menos uma trouxa de roupas.

- Certo dia, dona Anália apareceu com um saco nas costas: - comadre, eu vim aqui e estou passando tanta fome.

- Quem eu era, matava a tua fome e das meninas, né, comadre?

- Veja só em que estado fiquei, estou com muita fome.

- A minha mãe apenas respondeu:

- Não fique triste, comadre Anália.

- Mamãe colocou em sua sacola de tudo um pouco: café, sal, charque, bacalhau, açúcar e farinha.

- Comadre, caso eu não morra e fome, um dia apareço novamente.

- Vai com Deus, Anália, respondeu mamãe!

- Muito obrigada pelo alimento! Nunca vai faltar comida na sua mesa.

- E foi dessa forma a despedida de dona Anália, que nunca mais retornou.

- Ainda bem jovem, aos dezessete anos, conheci um príncipe encantado, o meu esposo Valentino. Em seguida passei a trabalhar numa fábrica de alimentos, onde me aposentei.

- Frutos do relacionamento nasceram os filhos, Heitor e Damião. Cresceram e cada um seguiu um destino legal e merecido.

- Quanto a minha mãe, nos deixou aos setenta e três anos. Já, as adoráveis irmãs, todas elas são viúvas e cada uma tem a sua casa própria, filhos e netos.

- E quanto a mim, meus queridos, estou aqui e deixo-lhes uma mensagem que mamãe nos ensinou:

“A vida é o grande livro da sabedoria
– aberto –
com algumas páginas em criptografia.”

Ficamos emocionados com a dona Rosália e em seguida chegamos próximos a um casal e assistimos a um diálogo que nos deixou ainda mais comovidos e sensibilizados. Tratava-se de uma bela história de amor entre o seu Jerônimo e dona Aparecida, que culminou com um triste laudo de Alzheimer.

- Uma vaga lembrança do que passou.

- Será que aconteceu mesmo? Momentos inesquecíveis perdidos no tempo - outrora vividos - momentos esquecidos.

- Tenho a certeza de que foram maravilhosos.

- Não sei como aconteceram.

- Qual mesmo o seu nome e de onde eu te conheço?

- Você me parece familiar.

- Tenho muito amor no coração, sou a tua companhia das horas incertas e de todo o sempre.

- A pessoa que te conheceu há cinquenta anos.

- Dentre tantas, você era a mais bela de todas as suas amigas.

- Lembra?

- Sim, mas é claro que lembro, faz muito tempo!

- Nos meus pensamentos tenho apenas a imagem de uma pessoa muito especial e sincera.

- Alguém que me acompanhou por muitos caminhos legais e repletos de facilidades.

- Compartilhamos maravilhas e tristezas.

- Mas, ele se foi como poeira ao vento.

- Quem é você mesmo?

- Sou o seu amor, a sua paixão desmedida.

- O pai dos teus filhos.

- Sim, sim, sim!

- Agora lembro!

- De que é mesmo que estamos falando?

- Do nosso amor, dos nossos instantes preciosos.

- Eu sei, aquele que se foi e me deixou aos prantos.

- Certamente, já não lembro mais dos detalhes, mas foi muito difícil ter que suportar a decepção.

- Era uma pessoa inesquecível e jamais terei um alguém tão especial ao meu lado.

- Moço, sabia que outro dia contemplava as ondas do mar?

- As espumas na areia e o sabor nos lábios me refrescavam a memória e trouxe muitas recordações.

- Caminhávamos sempre juntos ao entardecer e o pôr-do-sol nos presenteava com o céu alaranjado.

- Recordo de muitas coisas, mas não lembro muito bem de você.

- Quem é você mesmo?

- Eu sou o teu amigo, o teu irmão e o seu amor.

- Hummm, agora sei quem você é!

- Em teus braços contava as estrelas e como foi o dia.

- Não diga mais nada; apenas me ame como da última vez, pois posso não lembrar-me do que passou.

- É tudo tão confuso e o tempo parece parar.

- Num estalar de dedos esqueço e não recordo de mais nada; noutro trago a mais doce lembrança.

- Estarei contigo, não se preocupe.

- Até mesmo nos momentos em que não souberes mais quem eu sou?

- Estarei ao teu lado e amarei você pra sempre.

- Eu amo você, minha querida!

- Moço, me trate com carinho e desse jeito você será uma pessoa inesquecível.

Com certeza, as recordações do passado invadiram a minha mente e trouxe grandes ensinamentos.

É importante percebermos que mesmo diante de tantas dificuldades não devemos deixar de viver o lado bom da vida, pois cada instante de felicidade é precioso para quem busca a realização dos sonhos.

E nos momentos mais difíceis, quando nos julgarmos incapazes e abandonados, devemos sempre lembrar que com a força de vontade, movida pelo desejo do querer, podemos conquistar os nossos objetivos e sermos felizes. 
 
Disponível no site Enseada dos Pensamentos

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