sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Chico Pantaneiro




Chico Pantaneiro
(Gleidson Melo)

 Muitas histórias corroboram com a ideia de que existe lobisomem na cidade morena, uma bela cidade onde tive a oportunidade de conviver com os seus costumes e tradições. Conta-se que em Campo Grande, Mato Grosso Sul, o bicho andava solto. Isso era impossível, uma vez que esse personagem lendário de contos medonhos fora criado com bases na Mitologia Grega.

Cada região do Brasil possui o seu lobo-homem com características e maldições peculiares. A história aqui retratada pode ter sido um acontecimento ou simplesmente um evento surreal e tudo vai depender dos limites da imaginação. Dizem os mais velhos que no entorno da região do Parque dos Poderes existiam poucos casebres e apenas uma casa com chácara; tudo no cenário da segunda metade do século passado.

O fornecimento de energia elétrica era muito precário e passava-se muito tempo na escuridão – um verdadeiro convite ao medo. A circunvizinhança era marcada por um clima misterioso que pairava no ar e quando a noite caía ninguém queria se aventurar a tomar tereré no pátio e sair de dentro de suas casas.

Chico Pantaneiro, recém-chegado de Corumbá, era um cidadão pacato: pele queimada do sol e com os seus vinte e cinco anos de idade. Na chácara onde morava, levava uma vida muito estranha e rodeada de mistérios. Pouco se sabia sobre ele. Apenas que era o sétimo filho de uma família que teve as vidas ceifadas em um naufrágio de chalana, no rio Paraguai, e que somente o menino Chico, de oito anos de idade, sobrevivera ao afundamento da embarcação.

Quando o ciclo da lua se completava e chegava a tons de laranja, tipicamente da região, por causa das queimadas em dias de sequidão, sumia o homem, que somente aparecia no dia seguinte: trajava vestes sujas, rasgadas e fétidas. Sobre o que acontecia, corria um boato por toda a cidade que era coisa do sobrenatural. Não se passava pela cabeça que o homem era louco, pois desenvolvia satisfatoriamente as suas atividades de peão e cuidava muito bem das lidas. Mas, a verdade é que o seu comportamento era estranho.

A noite reservava mistérios inimagináveis e coincidia com a lua incrivelmente cheia. Muito curiosa, a Dona Cida – uma senhora de seus sessenta e três anos – cuidava dos afazeres da casa e da alimentação dos peões da chácara. Naquele dia Chico estava com seu chapéu pantaneiro, botas com esporas e apetrechos em seu cavalo Trovão. Tudo parecia normal, até o momento em que a mulher, curiosa, resolveu segui-lo.

Ela sabia que o homem tinha uma rotina de dar arrepios e não compreendia o gosto exótico de trabalhar no período noturno. Sempre que perguntava alguma coisa,

Chico justificava:

– É o meu trabalho e faço tudo com dedicação e paixão.

Foi à procura de Chico, que havia saído para cuidar do gado e partiu para investigar os repentinos desaparecimentos do moço. Na manhã seguinte, os outros peões contaram que ouviram os chamados da mulher, por detrás da edícula:

– Chico! Hora da janta!

– Por onde andas?

E nas profundezas do desconhecido, sumiu noite adentro. Por volta das cinco e meia da matina, Chico apareceu aos farrapos e completamente fora de si. Mas quando soube do desaparecimento de Dona Cida, passou a se preocupar com a ocorrência, igualmente aos outros trabalhadores e pessoas da família.

Aos poucos a tristeza instalou-se no lugar e o questionamento era único:

- Cadê a Dona Cida? O fato era que a pobre senhora havia desaparecido e somente após três dias fora encontrada com perfurações de caninos por todo o corpo e com vários fios de pelos de lobo em suas vestes.

- O que poderia ter acontecido? Questionavam os proprietários da chácara.

O Seu Estevão, um homem calmo de bigode comprido e Dona Jaci, uma meiga Senhora, ficaram perplexos e choravam bastante. Os outros trabalhadores também não se conformavam com a tragédia. Certamente desconfiaram de Chico, mas não conseguiram uma prova real que justificasse o acontecimento.

A polícia local partiu para a investigação e não conseguiu lograr êxito e o caso tornou-se um enigma a ser desvendado. Mesmo assim, Chico Pantaneiro permaneceu por mais três anos na chácara e depois disso partiu para Aquidauana, uma pequena e majestosa cidade do interior.

A casa da chácara ficou nos sonhos e sentimentos de muita gente, pois até hoje acredita-se que o bicho anda solto na cidade. Muitos relatos de lobisomem podem ser contados e a lenda urbana se torna presente nas vidas das pessoas.

As margens do córrego Prosa guardam os segredos e mistérios de algo inexplicável que ronda os bambuzais, local onde foi encontrada uma mulher com o corpo dilacerado por unhas e dentes de uma criatura misteriosa e desconhecida.
 
 
Disponível no site Enseada dos Pensamentos

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