sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A Chave





A Chave
(Gleidson Melo)

Seria o início de mais uma maldição de família ou apenas acaso de um destino sombrio e medonho? 

- Socorro, alguém me ajude, não consigo respirar!

- Tenha calma, como você conseguiu ficar trancada num lugar como este?

- Dê-me a chave, não posso abrir. Implorava Luzia em seu último suspiro para a liberdade eterna. 

Em seguida, o silêncio tomou conta do cenário e a noite de horror ficou marcada pelo suplício e a claustrofóbica agonia de uma donzela, que para sempre havia desaparecido do mapa. 

Tudo partiu de uma brincadeira entre Pedrinho e os meninos do interior. A escalada até o alto do morro era cansativa e compensava, pois tudo tinha que valer a pena. Verdadeiramente, um passeio naquela cidade pequena era o máximo que poderia acontecer na vida de um jovem rapaz de doze anos de idade.      

No topo da colina existia uma casa velha e abandona, quase no meio do nada. Fazia um tempo considerável que os donos foram embora. 

O casebre bem antigo e com características que remetiam à primeira metade do século passado, era um mocambo de taipa que fora erguido em cima de uma encosta. Lá, o vento assobiava e as janelas aparentemente abertas rangiam e evidenciavam o desgaste e a presença da ferrugem acumulada em suas dobradiças. 

O grande objetivo da brincadeira era chegar até a casa e, de assalto, poder adentrar no recinto para encontrar algum objeto qualquer, mas que pudesse servir de souvenir. Aquele que tivesse a coragem de ao menos atravessar o portão de madeira, chamado de portal, poderia colher as frutas possíveis do pomar esquecido pelo tempo. 

Tobias, o mais novo, subiu o barranco, mas desistiu de primeira. Contudo, Pedrinho, Luizinho e Fabiano permaneceram na disputa. Estranhamente existia uma menina misteriosa que rondava o lugar. Não importava, pois parecia uma moradora das redondezas. Era uma garota loira e de olhos azuis. 

- Ufa! Exclamou Tobias, percebendo todo o mistério que envolvia a atmosfera.

Arrepiado até a alma, não suportou ficar, partiu em desabalada carreira para o sopé da elevação.

Fora xingado, é claro!

- Molengas, Seu mulherzinha! Em tons de zombaria gritavam os meninos mais corajosos do pedaço.

Ninguém percebeu, mas Tobias havia rolado e caído na ribanceira, vindo a sofrer ferimentos leves.

- Poxa! Escapei por pouco, irei esperar. Repetia o menino com os olhos cheios de lágrimas. 

Enfim, alguém conseguiu o inédito, enquanto a brincadeira arrastava-se por muitos anos, ninguém tivera tamanha ousadia e coragem para enfrentar os mistérios que rondavam aquele lugar sombrio e inóspito. 

Luizinho e Fabiano sequer atravessaram o “portal” e o prêmio ficou para o mais ousado, o herói de todos os tempos.

- Seus bobos! Nada de mais. É apenas uma casa abandonada com alguns quadros dependurados na parede, com fotografias antigas e em preto e branco.

- Em um dos retratos, um casal, talvez os possíveis proprietários.

- Bobeira, essa de vocês! Dizia Pedrinho.

- Mas, o que você trouxe? Lembre-se, vai ter que carregar consigo e pra sempre, esse é o nosso pacto. Questionava e afirmava Luizinho.

- O que você achou de tão especial? Perguntou Fabiano.

- Encontrei uma chave.

- Observem como é linda, não é?

Hummm! Os meninos ficaram encabulados. 

Uma força misteriosa tomou conta do lugar e Pedrinho não pensou duas vezes; como fosse um amuleto da sorte, colocou no pescoço a chave com cordão dourado, envelhecido pelo tempo.

- É amigão, disse Fabiano:

“Quem guarda o que não presta, tem o que precisa.”

O tempo passou rápido, principalmente quando se vive num mundo de sonhos, típicos do período infanto-juvenil.

Na capital, Pedro obteve muito sucesso e conquistas na sua fase de adolescência. O ritual de passagem para a fase adulta foi marcado com a sua aprovação no conceituado curso de Medicina da Universidade Federal, motivo para toda a família se orgulhar.

Mesmo assim, uma coisa que incomodava os pais era a chave que Pedro carregava no pescoço.

Zilda e Antônio jamais souberam a origem daquele troféu. 

- Pedro, meu filho, agora que você é acadêmico, já está na hora de retirar essa chave do pescoço. Comentava  a mãe. 

- Deixa o menino! Com toda a calma necessária, dizia Antônio.

- Não posso mamãe, aconteceram coisas boas nesses últimos anos.

- Tudo bem, meu filho!

Em Aurora, a pequena cidade do interior, os meninos Tobias, Luizinho e Fabiano, logo após a brincadeira da casa abandonada, simplesmente desapareceram, um por vez. Talvez fosse esse o motivo principal para que várias histórias pudessem ser relatadas pelos mais velhos. 

Das idas e vindas do tempo, Pedro sempre visitava o interior e gostava da rotina pacata da cidade. Em seus passeios o jovem rapaz foi acometido por uma série de eventos sobrenaturais, dos quais se destacaram dois. 

No primeiro dos casos, durante um terror noturno, estava em um local inimaginável e sombrio.

- Salve-me, por favor! 

Era uma voz de mulher que sussurrava em seu ouvido e pedia ajuda. 

- Qual o seu nome? Perguntou Pedro, com ar de preocupação.

Apenas murmurava e parecia dar os últimos suspiros de vida.

- Abra essa porta, não aguento mais! 

O dia seguinte foi de questionamentos e Pedro consultou alguém mais velho e, como já sabia muito bem do acontecimento, apenas constatou que naquele bairro existia, há dez anos, uma menina que havia desaparecido misteriosamente. E no meio da conversa tocaram no assunto que apavorava o rapaz.

- É, Senhor! Na realidade a época coincide com o desaparecimento dos meus amigos. Disse Pedro.

- Olha, quanta coincidência. Comentou o Seu Joaquim, um dos moradores do bairro.

- É meu filho, ela gostava muito de brincar próximo à casa da colina.

- Sumiu repentinamente. Confirmou o homem.

- Certa vez eu brincava por lá, mas, faz tempo. Disse-lhe Pedro. 

O segundo evento foi o mais intrigante. Talvez não fosse tão real e sem grandes novidades, no entanto alimentou a imaginação do jovem. 

Sozinho, na rede a balançar, uma mão embalava de um lado; do outro, duas mãos sacudiam e dava uma sensação de balanço cada vez mais forte. 

Pedro era corajoso e não acreditava em fantasmas, até o momento em que as vozes dos meninos se confundiram com o silêncio da madrugada. 

 "Quem guarda o que não presta, tem o que precisa.

 A queda do barranco foi desastrosa, mas sobrevivi.

Parabéns, Pedro, você conseguiu ficar com a chave!"

Quem poderia ser o responsável pelos sumiços da garota e dos meninos? Talvez um assassino em série ou uma força sobrenatural. 

O pessoal do bairro ficou pavoroso com o assunto e ninguém se aventurava em passear na rua até certa hora.

Era uma noite de mistérios e antes de partir para a capital, conduzido por uma sensação misteriosa, Pedro seguiu até o cemitério da cidade. Sem medo, sem terror noturno; somente com a cara e a coragem. Ao chegar à necrópole adentrou e com ar sarcástico proferiu poucas palavras.

- Calma, Luzia, eu vou te libertar.

- Estou com a chave, não tenha medo. Prendi você e os meninos; foi só uma brincadeira.

Então, Pedro sacou a chave, abriu o mausoléu e desapareceu na escuridão.

Dizem por aí que aquele que encontrar a chave misteriosa, toda a maldição poderá ser repassada ao novo detentor. Isso foi possível e a lenda urbana se repetiu mais uma vez e fez surgir um caso um tanto intrigante.   

Conta-se que vários fantasmas atormentavam a vida de Elias e todos eles eram frutos da sua imaginação fértil. Ele encarava personagens que não existiam no mundo real; era acometido por verdadeiros surtos repentinos de surrealismo.

Tudo aconteceu quando naquela manhã em que Pedro havia desaparecido sem explicações, Elias resolveu entrar no cemitério da cidade para visitar o jazigo da família. Foi quando encontrou uma chave misteriosa com um cordão dourado envelhecido pelo tempo. 

À primeira vista, o encanto foi de imediato e prontamente colocou a chave no pescoço.

Aos poucos, aquele menino de doze anos ia mudando o seu comportamento. Os pais, com pouco estudo, jamais poderiam imaginar que se tratava de uma patologia que devesse um tratamento de saúde e quando o rapaz via os personagens dos filmes de desenho caminhando pela casa, tudo parecia engraçado e ninguém se preocupava com o que poderia estar por vir. 

Acreditavam que o garoto não queria deixar de ser criança. Certamente é uma fase muito complicada. 

Mais tarde, enquanto Elias abandonava o lado observador de ilusões, era inegável a capacidade de interpretação do mundo exterior, porque possuía uma inteligência acima da média.

Após um longo período os fantasmas do passado desapareceram da sua vida e com esforço formou-se em Administração de Empresas. Na multinacional onde trabalhava se destacava como o mais conceituado funcionário. 

O menino cresceu preso num mundo imaginário, embora tivesse conquistado tudo o quanto havia sonhado. Entretanto, mantinha a chave no pescoço, como fosse o seu amuleto da sorte.

Aos vinte e cinco anos apaixonou-se por Helena, uma bela e linda morena que parecia surgir dos sonhos. Casaram-se e logo em seguida nasceram as filhas, Sophia e Priscila. 

Alguns anos depois, algo de intrigante aconteceu com a mulher. Ela saiu de casa com o propósito de fazer compras e ao anoitecer foi encontrada perdida e vagando em uma rua distante. E o que mais intrigava era que na manhã do dia seguinte, não lembrava mais do episódio e tudo se caracterizava como fosse estresse, porque levava uma vida muito agitada. 

Naquele período Elias fazia questão de servi-lhe o café da manhã na cama e jamais abriu mão de  oferecer um delicioso e misterioso chá de ervas, que a após a ingestão apresentava um efeito colateral a quem sorvesse aquela bebida quente.

- Amor, essa infusão de ervas é para que você se torne, a cada dia,  a mulher mais bela do mundo.

- Obrigada, meu bem! Sinto uma sensação de euforia e prazer todos os dias. Respondeu Helena, com um sabor muito especial nos lábios.

Não perdia tempo e lá estava a mulher, indo levar as crianças para a escola. 

– Meninas, vocês estão atrasadas! 

– Estamos quase prontas, Mamãe! Lá do quarto gritou Sophia, a filha mais velha. 

– Vamos, entrem no carro. 

Ao chegar em casa, inesperadamente a mulher paralisou os músculos, tesou a testa e dormiu um sono profundo. 

– Coitada! Sequer houve tempo para pedir ajuda. Comentou Bernardo, o Delegado responsável pela investigação do caso.

Em pouco tempo a perícia médica constatou que se tratava de morte natural. No funeral, choros e lamentações marcaram de cinza o momento de despedidas, em plena sexta-feira treze. Talvez pudesse ser uma mera coincidência.

– Calma, meu filho, você vai superar tudo. Confortava a mãe de Helena, com palavras de conforto. 

Enquanto isso Elias permanecia mudo, com olhar distante e fixado na linha do horizonte.  Prontamente, as famílias reuniram-se e decidiram que Sophia e Priscila passariam a conviver com os avós paternos, pois as condições emocionais de Elias eram degradantes. 

Mais tarde a escuridão dava um ar de mistérios e ao cair da madrugada fria, o Seu Moacir, um dos coveiros mais antigos – também conhecido entre os colegas como “o papa-defuntos” – fazia o seu trabalho sujo no Cemitério Morada Feliz. 

Os tijolos por ele assentados durante o sepultamento de Helena foram colocados de forma que facilitassem uma tarefa planejada e astuta.  

Em sua empreitada, Moacir confabulava com os seus botões: 

– Hoje eu vou me dar bem.

– Olha só, quanto luxo foi o funeral! 

– Pra que tanta coisa? 

Sem nenhuma dificuldade removeu os tijolos da alvenaria mal acabada e chegou até o caixão, a fim de realizar o saque das joias e pertences valiosos. Foi quando Helena despertou da mais profunda escuridão, encerrando um ciclo cataléptico. 

– Socorro, socorro, alguém me ajude! Esbravejava o coveiro gatuno. 

O susto foi tão grande que o pobre homem morreu de verdade.

Apavorada e de pés descalços, Helena vestia branco e exalava um perfume de flores. Correu e conseguiu chegar até a sua casa e acionou a campainha. Elias abriu a porta; desesperada, a mulher entrou no recinto e sem muita cerimônia desabafou para o marido. 

– Amor, consegui escapar do cativeiro! 

Imaginava a mulher, achando que havia sido raptada. 

O susto que Elias tomou fez vir à tona as lembranças do passado, época em que havia encontrado uma misteriosa chave que jamais conseguiu abandonar. Ele permaneceu imobilizado, com semblante de perplexidade e em transe total. 

Rapidamente a notícia se espalhou pela cidade. Rejeitada pela sociedade, Helena passou a conviver em um mundo de desprezo, fechada e presa em sua própria sepultura, dessa vez bem real. Por sua vez, Elias era a única pessoa com a qual Helena poderia contar, mas foi internado como louco em um manicômio distante de Aurora.

Por muito tempo os moradores passaram a ter pavor da mulher que havia ressuscitado e fez surgir mais uma lenda urbana: 

“Helena, a morta viva”. 

Quanto à chave misteriosa, sabe-se apenas que trazia um tipo de maldição, diferente para cada um que ousasse utilizá-la como amuleto. 

Hoje, o caso que envolveu o sumiço dos meninos e fez surgir uma lenda urbana, continua sendo mistérios para os moradores da pequena cidade de Aurora, no interior do Brasil.


Disponível no site Enseada dos Pensamentos

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