sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A Chave





A Chave
(Gleidson Melo)

Seria o início de mais uma maldição de família ou apenas acaso de um destino sombrio e medonho? 

- Socorro, alguém me ajude, não consigo respirar!

- Tenha calma, como você conseguiu ficar trancada num lugar como este?

- Dê-me a chave, não posso abrir. Implorava Luzia em seu último suspiro para a liberdade eterna. 

Em seguida, o silêncio tomou conta do cenário e a noite de horror ficou marcada pelo suplício e a claustrofóbica agonia de uma donzela, que para sempre havia desaparecido do mapa. 

Tudo partiu de uma brincadeira entre Pedrinho e os meninos do interior. A escalada até o alto do morro era cansativa e compensava, pois tudo tinha que valer a pena. Verdadeiramente, um passeio naquela cidade pequena era o máximo que poderia acontecer na vida de um jovem rapaz de doze anos de idade.      

No topo da colina existia uma casa velha e abandona, quase no meio do nada. Fazia um tempo considerável que os donos foram embora. 

O casebre bem antigo e com características que remetiam à primeira metade do século passado, era um mocambo de taipa que fora erguido em cima de uma encosta. Lá, o vento assobiava e as janelas aparentemente abertas rangiam e evidenciavam o desgaste e a presença da ferrugem acumulada em suas dobradiças. 

O grande objetivo da brincadeira era chegar até a casa e, de assalto, poder adentrar no recinto para encontrar algum objeto qualquer, mas que pudesse servir de souvenir. Aquele que tivesse a coragem de ao menos atravessar o portão de madeira, chamado de portal, poderia colher as frutas possíveis do pomar esquecido pelo tempo. 

Tobias, o mais novo, subiu o barranco, mas desistiu de primeira. Contudo, Pedrinho, Luizinho e Fabiano permaneceram na disputa. Estranhamente existia uma menina misteriosa que rondava o lugar. Não importava, pois parecia uma moradora das redondezas. Era uma garota loira e de olhos azuis. 

- Ufa! Exclamou Tobias, percebendo todo o mistério que envolvia a atmosfera.

Arrepiado até a alma, não suportou ficar, partiu em desabalada carreira para o sopé da elevação.

Fora xingado, é claro!

- Molengas, Seu mulherzinha! Em tons de zombaria gritavam os meninos mais corajosos do pedaço.

Ninguém percebeu, mas Tobias havia rolado e caído na ribanceira, vindo a sofrer ferimentos leves.

- Poxa! Escapei por pouco, irei esperar. Repetia o menino com os olhos cheios de lágrimas. 

Enfim, alguém conseguiu o inédito, enquanto a brincadeira arrastava-se por muitos anos, ninguém tivera tamanha ousadia e coragem para enfrentar os mistérios que rondavam aquele lugar sombrio e inóspito. 

Luizinho e Fabiano sequer atravessaram o “portal” e o prêmio ficou para o mais ousado, o herói de todos os tempos.

- Seus bobos! Nada de mais. É apenas uma casa abandonada com alguns quadros dependurados na parede, com fotografias antigas e em preto e branco.

- Em um dos retratos, um casal, talvez os possíveis proprietários.

- Bobeira, essa de vocês! Dizia Pedrinho.

- Mas, o que você trouxe? Lembre-se, vai ter que carregar consigo e pra sempre, esse é o nosso pacto. Questionava e afirmava Luizinho.

- O que você achou de tão especial? Perguntou Fabiano.

- Encontrei uma chave.

- Observem como é linda, não é?

Hummm! Os meninos ficaram encabulados. 

Uma força misteriosa tomou conta do lugar e Pedrinho não pensou duas vezes; como fosse um amuleto da sorte, colocou no pescoço a chave com cordão dourado, envelhecido pelo tempo.

- É amigão, disse Fabiano:

“Quem guarda o que não presta, tem o que precisa.”

O tempo passou rápido, principalmente quando se vive num mundo de sonhos, típicos do período infanto-juvenil.

Na capital, Pedro obteve muito sucesso e conquistas na sua fase de adolescência. O ritual de passagem para a fase adulta foi marcado com a sua aprovação no conceituado curso de Medicina da Universidade Federal, motivo para toda a família se orgulhar.

Mesmo assim, uma coisa que incomodava os pais era a chave que Pedro carregava no pescoço.

Zilda e Antônio jamais souberam a origem daquele troféu. 

- Pedro, meu filho, agora que você é acadêmico, já está na hora de retirar essa chave do pescoço. Comentava  a mãe. 

- Deixa o menino! Com toda a calma necessária, dizia Antônio.

- Não posso mamãe, aconteceram coisas boas nesses últimos anos.

- Tudo bem, meu filho!

Em Aurora, a pequena cidade do interior, os meninos Tobias, Luizinho e Fabiano, logo após a brincadeira da casa abandonada, simplesmente desapareceram, um por vez. Talvez fosse esse o motivo principal para que várias histórias pudessem ser relatadas pelos mais velhos. 

Das idas e vindas do tempo, Pedro sempre visitava o interior e gostava da rotina pacata da cidade. Em seus passeios o jovem rapaz foi acometido por uma série de eventos sobrenaturais, dos quais se destacaram dois. 

No primeiro dos casos, durante um terror noturno, estava em um local inimaginável e sombrio.

- Salve-me, por favor! 

Era uma voz de mulher que sussurrava em seu ouvido e pedia ajuda. 

- Qual o seu nome? Perguntou Pedro, com ar de preocupação.

Apenas murmurava e parecia dar os últimos suspiros de vida.

- Abra essa porta, não aguento mais! 

O dia seguinte foi de questionamentos e Pedro consultou alguém mais velho e, como já sabia muito bem do acontecimento, apenas constatou que naquele bairro existia, há dez anos, uma menina que havia desaparecido misteriosamente. E no meio da conversa tocaram no assunto que apavorava o rapaz.

- É, Senhor! Na realidade a época coincide com o desaparecimento dos meus amigos. Disse Pedro.

- Olha, quanta coincidência. Comentou o Seu Joaquim, um dos moradores do bairro.

- É meu filho, ela gostava muito de brincar próximo à casa da colina.

- Sumiu repentinamente. Confirmou o homem.

- Certa vez eu brincava por lá, mas, faz tempo. Disse-lhe Pedro. 

O segundo evento foi o mais intrigante. Talvez não fosse tão real e sem grandes novidades, no entanto alimentou a imaginação do jovem. 

Sozinho, na rede a balançar, uma mão embalava de um lado; do outro, duas mãos sacudiam e dava uma sensação de balanço cada vez mais forte. 

Pedro era corajoso e não acreditava em fantasmas, até o momento em que as vozes dos meninos se confundiram com o silêncio da madrugada. 

 "Quem guarda o que não presta, tem o que precisa.

 A queda do barranco foi desastrosa, mas sobrevivi.

Parabéns, Pedro, você conseguiu ficar com a chave!"

Quem poderia ser o responsável pelos sumiços da garota e dos meninos? Talvez um assassino em série ou uma força sobrenatural. 

O pessoal do bairro ficou pavoroso com o assunto e ninguém se aventurava em passear na rua até certa hora.

Era uma noite de mistérios e antes de partir para a capital, conduzido por uma sensação misteriosa, Pedro seguiu até o cemitério da cidade. Sem medo, sem terror noturno; somente com a cara e a coragem. Ao chegar à necrópole adentrou e com ar sarcástico proferiu poucas palavras.

- Calma, Luzia, eu vou te libertar.

- Estou com a chave, não tenha medo. Prendi você e os meninos; foi só uma brincadeira.

Então, Pedro sacou a chave, abriu o mausoléu e desapareceu na escuridão.

Dizem por aí que aquele que encontrar a chave misteriosa, toda a maldição poderá ser repassada ao novo detentor. Isso foi possível e a lenda urbana se repetiu mais uma vez e fez surgir um caso um tanto intrigante.   

Conta-se que vários fantasmas atormentavam a vida de Elias e todos eles eram frutos da sua imaginação fértil. Ele encarava personagens que não existiam no mundo real; era acometido por verdadeiros surtos repentinos de surrealismo.

Tudo aconteceu quando naquela manhã em que Pedro havia desaparecido sem explicações, Elias resolveu entrar no cemitério da cidade para visitar o jazigo da família. Foi quando encontrou uma chave misteriosa com um cordão dourado envelhecido pelo tempo. 

À primeira vista, o encanto foi de imediato e prontamente colocou a chave no pescoço.

Aos poucos, aquele menino de doze anos ia mudando o seu comportamento. Os pais, com pouco estudo, jamais poderiam imaginar que se tratava de uma patologia que devesse um tratamento de saúde e quando o rapaz via os personagens dos filmes de desenho caminhando pela casa, tudo parecia engraçado e ninguém se preocupava com o que poderia estar por vir. 

Acreditavam que o garoto não queria deixar de ser criança. Certamente é uma fase muito complicada. 

Mais tarde, enquanto Elias abandonava o lado observador de ilusões, era inegável a capacidade de interpretação do mundo exterior, porque possuía uma inteligência acima da média.

Após um longo período os fantasmas do passado desapareceram da sua vida e com esforço formou-se em Administração de Empresas. Na multinacional onde trabalhava se destacava como o mais conceituado funcionário. 

O menino cresceu preso num mundo imaginário, embora tivesse conquistado tudo o quanto havia sonhado. Entretanto, mantinha a chave no pescoço, como fosse o seu amuleto da sorte.

Aos vinte e cinco anos apaixonou-se por Helena, uma bela e linda morena que parecia surgir dos sonhos. Casaram-se e logo em seguida nasceram as filhas, Sophia e Priscila. 

Alguns anos depois, algo de intrigante aconteceu com a mulher. Ela saiu de casa com o propósito de fazer compras e ao anoitecer foi encontrada perdida e vagando em uma rua distante. E o que mais intrigava era que na manhã do dia seguinte, não lembrava mais do episódio e tudo se caracterizava como fosse estresse, porque levava uma vida muito agitada. 

Naquele período Elias fazia questão de servi-lhe o café da manhã na cama e jamais abriu mão de  oferecer um delicioso e misterioso chá de ervas, que a após a ingestão apresentava um efeito colateral a quem sorvesse aquela bebida quente.

- Amor, essa infusão de ervas é para que você se torne, a cada dia,  a mulher mais bela do mundo.

- Obrigada, meu bem! Sinto uma sensação de euforia e prazer todos os dias. Respondeu Helena, com um sabor muito especial nos lábios.

Não perdia tempo e lá estava a mulher, indo levar as crianças para a escola. 

– Meninas, vocês estão atrasadas! 

– Estamos quase prontas, Mamãe! Lá do quarto gritou Sophia, a filha mais velha. 

– Vamos, entrem no carro. 

Ao chegar em casa, inesperadamente a mulher paralisou os músculos, tesou a testa e dormiu um sono profundo. 

– Coitada! Sequer houve tempo para pedir ajuda. Comentou Bernardo, o Delegado responsável pela investigação do caso.

Em pouco tempo a perícia médica constatou que se tratava de morte natural. No funeral, choros e lamentações marcaram de cinza o momento de despedidas, em plena sexta-feira treze. Talvez pudesse ser uma mera coincidência.

– Calma, meu filho, você vai superar tudo. Confortava a mãe de Helena, com palavras de conforto. 

Enquanto isso Elias permanecia mudo, com olhar distante e fixado na linha do horizonte.  Prontamente, as famílias reuniram-se e decidiram que Sophia e Priscila passariam a conviver com os avós paternos, pois as condições emocionais de Elias eram degradantes. 

Mais tarde a escuridão dava um ar de mistérios e ao cair da madrugada fria, o Seu Moacir, um dos coveiros mais antigos – também conhecido entre os colegas como “o papa-defuntos” – fazia o seu trabalho sujo no Cemitério Morada Feliz. 

Os tijolos por ele assentados durante o sepultamento de Helena foram colocados de forma que facilitassem uma tarefa planejada e astuta.  

Em sua empreitada, Moacir confabulava com os seus botões: 

– Hoje eu vou me dar bem.

– Olha só, quanto luxo foi o funeral! 

– Pra que tanta coisa? 

Sem nenhuma dificuldade removeu os tijolos da alvenaria mal acabada e chegou até o caixão, a fim de realizar o saque das joias e pertences valiosos. Foi quando Helena despertou da mais profunda escuridão, encerrando um ciclo cataléptico. 

– Socorro, socorro, alguém me ajude! Esbravejava o coveiro gatuno. 

O susto foi tão grande que o pobre homem morreu de verdade.

Apavorada e de pés descalços, Helena vestia branco e exalava um perfume de flores. Correu e conseguiu chegar até a sua casa e acionou a campainha. Elias abriu a porta; desesperada, a mulher entrou no recinto e sem muita cerimônia desabafou para o marido. 

– Amor, consegui escapar do cativeiro! 

Imaginava a mulher, achando que havia sido raptada. 

O susto que Elias tomou fez vir à tona as lembranças do passado, época em que havia encontrado uma misteriosa chave que jamais conseguiu abandonar. Ele permaneceu imobilizado, com semblante de perplexidade e em transe total. 

Rapidamente a notícia se espalhou pela cidade. Rejeitada pela sociedade, Helena passou a conviver em um mundo de desprezo, fechada e presa em sua própria sepultura, dessa vez bem real. Por sua vez, Elias era a única pessoa com a qual Helena poderia contar, mas foi internado como louco em um manicômio distante de Aurora.

Por muito tempo os moradores passaram a ter pavor da mulher que havia ressuscitado e fez surgir mais uma lenda urbana: 

“Helena, a morta viva”. 

Quanto à chave misteriosa, sabe-se apenas que trazia um tipo de maldição, diferente para cada um que ousasse utilizá-la como amuleto. 

Hoje, o caso que envolveu o sumiço dos meninos e fez surgir uma lenda urbana, continua sendo mistérios para os moradores da pequena cidade de Aurora, no interior do Brasil.


Disponível no site Enseada dos Pensamentos

Existe um Caminho



Existe um Caminho
(Gleidson Melo)

Santa Felicidade, uma cidadezinha no interior do Brasil. Há dezoito anos nasceu Francisco, nada a mais, além dos seus três quilos e oitocentos gramas de pura saúde. Olhos bem abertos e de cabeça pelada, recebera duas palmadas da Doutora Márcia e aplausos de toda uma equipe. 

- Lindo bebê. Comentou, enquanto limpava o menino e cortava o cordão umbilical. 

- Que maravilha de menino! Emocionada, enfatizou a enfermeira.

 Tudo era fotografado e passava pelas lentes de uma das convidadas que chegou para assistir o parto. Magali era uma velha amiga de família. Estava ali somente para registrar os melhores ângulos, só para ninguém ficar chorando.

O seu pai Josué era simples no modo de agir – um jovem de vinte e dois anos – três anos mais novo que a sua esposa Catarina. Olhos embebidos de lágrimas; não se continha e acompanhava tudo através de uma janela de vidro. Ele e a família assistiam cada passo do evento, enquanto os murmurinhos dos corredores traziam a grande notícia da noite. 

- Nasceu um menino lindo!

- Um lindo bebê!

 Extasiada, Catarina nem se mexia. Coitada! Talvez pelas dores do parto ou por ter ficado radiante pelo sublime instante. Com tantas luzes e elogios em sua volta, restou-lhe ficar paralisada com a situação. 

Emoção? 

Quem vai saber?

Uma coisa era certa, as lágrimas indicavam que algo de especial acontecia naquele hospital. 

- Mãe, está aqui o seu príncipe encantado.

Entregou o bebê e elogiou a Doutora!  

Era o menino envolto por uma coberta macia de cor verde bem clarinha. 

- Dê-lhe o peito.

 E Francisco mamou até ficar em tons roxeados. Tudo era motivo de festa e todos celebravam mais um nascimento na Maternidade Futuro. Logo, passou a ser chamado pelo codinome Chiquinho, em homenagem ao seu avô nordestino, por parte do pai.

No início era mágico e o relacionamento do casal fluía às mil maravilhas. Josué, um carioca esperto, com o passar do tempo, a cidade maravilhosa lhe esperava a cada dia de confusões. Não era para menos, os seus parentes e amigos moravam distantes da cidade de nascença. Os dias pungentes projetavam os seus pensamentos para além da longa estrada. 

Catarina se descompensava com as ofensas que fazia: 

 - Homem imprestável! 

- Vai embora e me deixa em paz. 

- Infame! 

- Não aguento mais essa situação.

 O que ela não entendia era a verdade de que todas as coisas precisavam acontecer no momento mais propício. Quando queria um vestido, por exemplo, queria "aquele vestido". 

Murmurava Josué:

 – Não consigo dar conta de tantas responsabilidades, devemos planejar o orçamento.

A situação mais crítica entre o casal ocorreu num dia de decisão no futebol brasileiro Assistiam um dos grandes clássicos da região – o placar marcava Grêmio 0x2 Internacional – e Chiquinho e o seu pai estavam vestidos com as camisas dos seus times favoritos. Embora perdendo para o arquirrival colorado, não paravam de torcer. A esposa (do contra) usava vermelho e branco. 

Ela preferia agir com as vozes da razão e muitas palavras eram jogadas ao vento. A mulher impingia o mal para tudo e todos. Enquanto a emoção, sequer passava por perto daquela barra de saia e sempre buscava acreditar que o mundo deveria girar, único e exclusivamente, para si. 

Era pura falta de sensibilidade e egoísmo à flor da pele. Enfim, o jogo congelou com aquele placar e com a disputa por desejos e vontades de Catarina.

Paralelo ao turbilhão de acontecimentos, o emprego de Josué proporcionava-lhe a realização de concursos de remoção (já estava com as "cartas nas mangas", é claro!), o que lhe constituía uma verdadeira válvula de escape. 

Em uma das brigas, exclamava:

- Vou embora! 

- Cansei de passar por situações! 

Prontamente, acabou por arrumar as malas (as suas malas já estavam quase prontas e a espera de um momento certo). 

Seguiu o seu caminho e foi parar em sua terra natal. 

O pai fez tudo o quanto era possível para levar o menino consigo e mesmo assim, ouvir muita coisa:

- Um dia você vai se arrepender.

- Miserável!

 No entanto, do que valeria amar uma pedra? Foi quando, aos quatro anos de vida, Chiquinho amargou a dor da separação dos seus pais. 

Sem calar, dizia repetidamente: 

- A culpa foi minha.

 E todos os dias era a mesma ladainha:

- Cadê o meu pai? 

- Foi pro céu? 

- Aonde ele foi?

Ficaram desolados, Chiquinho e a sua mãe. Pouco a pouco as notícias se desencontravam e a cada dia era um dia de sorte para o simpático menino. Tragicamente, a jornada da vida mal começava a dar os seus primeiros passos, rumo para um futuro totalmente desconhecido. A vida ia seguindo o seu percurso e a constituição familiar foi esfacelando-se aos poucos. 

Uma vez ou outra, o menino escapava para a rua e lá passava o dia a perambular. Quando era noitinha a mãe o chamava e lamentava:

- Chiquinho passe para dentro, já é noite! 

- Seu pai foi embora e nos deixou sem nada. 

- Que infelicidade!

Era a mesma súplica diária, e complementava o discurso:

 - Que miserê!

 Com aquela infância sem lei, o coitadinho não compreendia muito bem o que se passava - não se fazia nada e Chiquinho seguia seco.

Catarina resolveu que deveria apaixonar-se e casou-se com um homem de trejeitos esquisitos e de olhares profundos. A vida é feita de escolhas e o amor às vezes é cego. 

Catarina se transformou numa criatura totalmente descompensada e não conseguia enxergar um palmo à frente do seu próprio nariz. Valdinho, o padrasto do menino, nunca conseguia se estabelecer na vida. Trabalhava naquilo que lhe garantia alguma gorjeta, que mal dava para o próprio sustento, quiçá de uma pequena família. 

Desconcertados, igualmente ao relacionamento anterior, o casal não parava de brigar. Nada se podia fazer e ninguém da família tomava partido. 


- Em brigas de marido e mulher não se mete a colher.

A mesma história se repetia e enquanto isso, Catarina não passava mais que dois anos com o mesmo relacionamento. 

A instabilidade de convivência familiar em sua vida era iminente. 

Devido às péssimas condições, em todos os aspectos, a Catarina resolveu levar Chiquinho para uma casa de sítio, distante de Santa Felicidade - que já era interiorana – na condição de morar com os avós. O seu avô Jacinto era um homem durão e mais grosso que "papel de embrulhar pregos" e não tinha um senso agradável de pai (certo de que ninguém substitui um pai). Mesmo assim conquistou o seu netinho Chiquinho. 

Dona Margarida era uma mulher de meia idade, pele morena e de personalidade bem forte, mas com um coração grandão (toda avó tem um coração do tamanho de um trem), que conquistava o menino com os seus mimos. 

Agrados à parte, os momentos da infância de Chiquinho foram marcados por dias de muitos trabalhos no campo. Mas, o bom de tudo é que ele não chegou a abandonar os estudos, por recomendação dos seus avós e das aspirações do seu pai.

Sempre havia alguém que dizia: 

- Seu pai era um catedrático, uma pessoa de estudos e letrada. 

Tudo, porque Josué era apaixonado pela escola e estudos. Mesmo sem entender a verdadeira causa do rompimento dos laços de família, Chiquinho sentia muita falta do seu pai. 

A saudade era maior quando se comemoravam na escola o Dia dos Pais.
Simplesmente o pai de Chiquinho não aparecia.  

O menino com ar de tristeza, perguntava para a professora: 

- Tia, o meu pai vai chegar? 

Olha filho, respondia a tia Zezé:

 – Fique calmo, um dia ele volta.

Mesmo assim, os presentes eram levados para casa. Coisas simples, construídas com papel, cola, tinta guache e muita criatividade. E desse modo, acontecia com as outras datas mais importantes da folhinha: Natal, Ano Novo, Páscoa e Dia das Crianças. 

Com certeza, a culpa não poderia recair totalmente sobre as costas de Josué. Quando podia, ele telefonava para o filho. Embora, na maioria das vezes, acontecia de não completar a ligação, porque as torres de transmissão de sinais para telefones móveis eram precárias, enquanto os aparelhos da época pareciam caixas de sapatos e possuíam antenas, totalmente diferentes dos smartphones dos dias atuais.

Aos poucos, a imperiosa marcha do tempo ditava a formação da personalidade de Chiquinho, que por sinal era muito forte. Todavia, a revolta com o seu pai tornou-se notável e constituía um verdadeiro coquetel de rancores.

Aos doze anos de idade a vida de Chiquinho começava a se transformar de forma inexplicável. Momento em que o seu Jacinto e dona Margarida deixaram a lida do campo e foram morar em Santa Felicidade. 

- O menino precisava respirar o ar da cidade, diziam os avós. 

Logo, a permissividade se tornou marca registrada da família. 

Bem-vindos, de volta à civilização. Chegaram com a cara e a coragem. O avô, quase um aposentado rural, entregou-se à bebedeira. 

Dizia o homem nos dias de profunda e total desilusão:

– Que tenho a perder?

 – Que levarei dessa vida, senão as amarguras? 

Ele não conseguia parar de sorver a sua pinga um instante. Chiquinho, na cidade, mesmo cambaio continuou os seus estudos. Aos treze anos reencontrou novamente o seu pai. Josué cheio de saudades foi visitar o seu rapaz  (um pai nunca se esquece do filho). Encontrou o menino numa situação muito difícil e com sintomas de angústia guardada no peito. 

De cara, Chiquinho lhe questionou:

- Tu és o meu pai? 

- Esperei muito por esse momento. 

- Vieste me buscar?

 O pai respondeu que sim. 

- É claro, meu filho.

- Um pai jamais vai se esquecer do filho.

- As circunstâncias da vida me levaram para bem longe daqui.

Envolto ao mistério, cercavam algumas condicionantes que percorriam os sentimentos. Não ia ser tão fácil resgatá-lo, porque naquele momento alguns fatores pesaram sobre a decisão. A mãe não poderia perder o rendimento de pensão que ganhava de forma tão fácil. A avó e o avô que cuidaram o tempo todo do neto, não queriam deixá-lo partir. E agora? Os sonhos de Chiquinho não passavam de poeira ao vento. Mas, a vida que era difícil poderia ficar melhor do dia para noite. As investidas do pai não obtiveram o sucesso desejado. Depois disso, nunca mais se ouviu falar de Josué.

Com o coração ferido e a desilusão do desafeto, o menino se tornou ainda mais uma pessoa amarga. Por conta, sem limites de obediência, ninguém conseguia segurá-lo. Sumia por três dias e aparecia sujo, desarrumado e com fome. 

Sem controle e regras, era um andarilho e se metia sempre em confusões. Pagou-se um alto preço por tudo isso. Os estudos foram consumidos e restou-lhe a falta de conclusão do Ensino Fundamental e de uma vida de futuro certo. Chiquinho partiu para o mundo e para os desafios da vida.

As suas lembranças de molequices podiam vagar na memória: o cavalo corisco, o banho de chuva e contos de histórias na claridade do candeeiro, ainda quando morava no interior do interior. A luz elétrica, é claro, existia há muito tempo. Contudo, a precariedade de manutenção é quem dava as caras de vez em quando. O clima lá de fora era outro e os vaga-lumes com os seus lampejos enfeitavam a atmosfera rica e saudável.

Aos dezoito anos os sonhos de Chiquinho afundaram-se na lama da ignorância. A vida escapava por entre os dedos e o rapaz soltou-se mundo afora. Definitivamente perdeu o contato com seus pais, parentes e amigos da velha infância.

Chiquinho seguiu o seu destino e rumo em direção ao desconhecido. Sem tempo, no alento e condenado por suas atitudes, passou a viver nas ruas; não possuía um lar e uma família que o edificasse. Abandonado, tornou-se um farrapo humano.

A sua origem passou a ser completamente desconhecida e aos vinte e três anos continuava às margens da sociedade. 

Nessa fase da vida passou a atender pelo codinome Chulé, o Zumbi da Feira. Ele fazia da calçada a sua cama de solteiro e quando chovia, parava embaixo da marquise da loja de calçados.

A comida era disputada com os pombos, que instintivamente sabiam exatamente o horário do almoço. As aves eram mais rápidas e o tempo não era o suficiente para resgatar o alimento jogado no lixo. A fome fazia doer o estômago e a sensação de abstinência das drogas era de enlouquecer. 

Chiquinho conseguia um troco no estacionamento, mas, as moedas recebidas eram acumuladas em seus bolsos imundos e todo o apurado cumpria um único destino.

O apelido Chulé deveu-se à fedentina exalada dos seus pés, e quanto ao título de Zumbi da Feira, este se deu pelo motivo do estado de alienado, por conta do crack que o consumia. 

Dizem que a vida é feita de escolhas e cada um é responsável pelo próprio destino, isto é, para aqueles que acreditam em destino. Em verdade, o destino existe para quem busca um objetivo certo na vida. Os sonhos podem ser ilusões e uma meta a ser alcançada não se constitui em apenas delírios emocionais. 

A vida prega muitas peças e a jornada diária pode tornar-se um verdadeiro suplício, quando se trata da busca pela própria sobrevivência.

Quanto ao cerne da questão, relativa à temática do viciado, do coitadinho ou do indefeso, levada a cabo, seria o suficiente para resolver o problema de Chiquinho?

Ora, interná-lo em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos poderia ser a solução. Quem vai saber? Nas ruas, o mundo é cão e a roda da vida gira sem saber aonde vai parar.

Um pão francês com manteiga de manhãzinha, regado a um delicioso café com leite seria um grandioso presente para quem padece nas calçadas. Certo de que algumas pessoas não têm opções, porque foram abandonadas por parentes; enquanto outras escolheram viver ao léu e não conseguiram mais retroceder e retornar ao seio da família. Para muitos, afinal, escolhas são escolhas.

Domingão de manhã e Chiquinho foi surpreendido por um grupo de pessoas em sua volta. Estava com o corpo trêmulo e não dava para dizer o motivo – frio ou efeito dos alucinógenos? Elas faziam parte de uma "Organização Não Governamental", cuja finalidade focava na libertação de dependentes químicos.

   O moço foi levado para uma fazendinha para tratamento de dependentes químicos. Inicialmente, sentado, bem quieto e cabisbaixo, lá estava Francisco, bem magrinho e de boné com a pala voltada para trás. Enquanto isso, a cena era profundamente chocante. Um nó na garganta e coquetéis de emoções podia invadir o peito e a mente de qualquer pessoa. 

O choro era contido em milésimos de segundos e todos permaneciam perplexos. Era o momento de mais uma reunião da comunidade terapêutica para dependentes químicos, afastada da vida urbana. 

   Ao redor, formando um círculo de pessoas, dava para perceber que outros rapazes de pouca idade, também participavam da sessão. Bem atento às apresentações, chegou a sua vez, e infelizmente a mesma história cruel e de desafeto familiar se repetia.  

Aparentemente, sem pai e mãe, ele havia sido resgatado em meio a um território sem lei, onde reinava a violência e todo o tipo de dependência química podia ser visto, incluindo-se maconha, crack, álcool, pasta-base de cocaína e muitas outras combinações de drogas. Chiquinho era usuário de crack, da mesma forma que a maioria dos dependentes da comunidade terapêutica. 

Com muita vergonha e timidez estampada no semblante, o moço se apresentou para o grupo.

- Meu nome é Francisco e muito cedo saí de casa;

- Nas ruas, conheci muitos meninos da minha idade que gostavam de usar drogas;

- Primeiro, comecei a fumar cigarros e depois experimentei maconha;

- Queria algo mais forte e comecei a usar crack.

- E como você chegou até aqui? Perguntou Armando, o instrutor da casa que conduzia a reunião.

- Morava na rua, sabe? 

- E não conseguia parar de usar drogas.

  Na oportunidade, muitos relatos surpreendentes foram contados e logo após a apresentação foi proferida uma palestra que enfocava os malefícios de cada tipo de droga. Buscou-se deixar bem claro para todos os participantes que a dependência química pode destruir os lares e as famílias. Sendo, a falta de amor à própria vida, uma marca registrada de quem é usuário químico. 

Certamente, na abstinência os usuários são capazes de fazer qualquer coisa para a obtenção da droga, até mesmo prostituírem-se, não importando o sexo, nem a idade; e cometerem furtos dos bens da família, principalmente celulares, joias, máquinas de lavar e micro-ondas.  Além disso, retirarem o sossego dos pais e dos parentes.  

O grande propósito e o desafio dos internos era o de poder colocar todo o mal e aflições nas mãos de Deus. A fé libertou muita gente das drogas, naquele lugar. 

Com o tempo e muita dedicação, Chiquinho trilhou um rumo certo e tornou-se um dos líderes da ONG que o acolheu. Hoje,  dedica-se ao resgate de vidas consideradas perdidas para as drogas. 

Disponível no site Enseada dos Pensamentos

Chico Pantaneiro




Chico Pantaneiro
(Gleidson Melo)

 Muitas histórias corroboram com a ideia de que existe lobisomem na cidade morena, uma bela cidade onde tive a oportunidade de conviver com os seus costumes e tradições. Conta-se que em Campo Grande, Mato Grosso Sul, o bicho andava solto. Isso era impossível, uma vez que esse personagem lendário de contos medonhos fora criado com bases na Mitologia Grega.

Cada região do Brasil possui o seu lobo-homem com características e maldições peculiares. A história aqui retratada pode ter sido um acontecimento ou simplesmente um evento surreal e tudo vai depender dos limites da imaginação. Dizem os mais velhos que no entorno da região do Parque dos Poderes existiam poucos casebres e apenas uma casa com chácara; tudo no cenário da segunda metade do século passado.

O fornecimento de energia elétrica era muito precário e passava-se muito tempo na escuridão – um verdadeiro convite ao medo. A circunvizinhança era marcada por um clima misterioso que pairava no ar e quando a noite caía ninguém queria se aventurar a tomar tereré no pátio e sair de dentro de suas casas.

Chico Pantaneiro, recém-chegado de Corumbá, era um cidadão pacato: pele queimada do sol e com os seus vinte e cinco anos de idade. Na chácara onde morava, levava uma vida muito estranha e rodeada de mistérios. Pouco se sabia sobre ele. Apenas que era o sétimo filho de uma família que teve as vidas ceifadas em um naufrágio de chalana, no rio Paraguai, e que somente o menino Chico, de oito anos de idade, sobrevivera ao afundamento da embarcação.

Quando o ciclo da lua se completava e chegava a tons de laranja, tipicamente da região, por causa das queimadas em dias de sequidão, sumia o homem, que somente aparecia no dia seguinte: trajava vestes sujas, rasgadas e fétidas. Sobre o que acontecia, corria um boato por toda a cidade que era coisa do sobrenatural. Não se passava pela cabeça que o homem era louco, pois desenvolvia satisfatoriamente as suas atividades de peão e cuidava muito bem das lidas. Mas, a verdade é que o seu comportamento era estranho.

A noite reservava mistérios inimagináveis e coincidia com a lua incrivelmente cheia. Muito curiosa, a Dona Cida – uma senhora de seus sessenta e três anos – cuidava dos afazeres da casa e da alimentação dos peões da chácara. Naquele dia Chico estava com seu chapéu pantaneiro, botas com esporas e apetrechos em seu cavalo Trovão. Tudo parecia normal, até o momento em que a mulher, curiosa, resolveu segui-lo.

Ela sabia que o homem tinha uma rotina de dar arrepios e não compreendia o gosto exótico de trabalhar no período noturno. Sempre que perguntava alguma coisa,

Chico justificava:

– É o meu trabalho e faço tudo com dedicação e paixão.

Foi à procura de Chico, que havia saído para cuidar do gado e partiu para investigar os repentinos desaparecimentos do moço. Na manhã seguinte, os outros peões contaram que ouviram os chamados da mulher, por detrás da edícula:

– Chico! Hora da janta!

– Por onde andas?

E nas profundezas do desconhecido, sumiu noite adentro. Por volta das cinco e meia da matina, Chico apareceu aos farrapos e completamente fora de si. Mas quando soube do desaparecimento de Dona Cida, passou a se preocupar com a ocorrência, igualmente aos outros trabalhadores e pessoas da família.

Aos poucos a tristeza instalou-se no lugar e o questionamento era único:

- Cadê a Dona Cida? O fato era que a pobre senhora havia desaparecido e somente após três dias fora encontrada com perfurações de caninos por todo o corpo e com vários fios de pelos de lobo em suas vestes.

- O que poderia ter acontecido? Questionavam os proprietários da chácara.

O Seu Estevão, um homem calmo de bigode comprido e Dona Jaci, uma meiga Senhora, ficaram perplexos e choravam bastante. Os outros trabalhadores também não se conformavam com a tragédia. Certamente desconfiaram de Chico, mas não conseguiram uma prova real que justificasse o acontecimento.

A polícia local partiu para a investigação e não conseguiu lograr êxito e o caso tornou-se um enigma a ser desvendado. Mesmo assim, Chico Pantaneiro permaneceu por mais três anos na chácara e depois disso partiu para Aquidauana, uma pequena e majestosa cidade do interior.

A casa da chácara ficou nos sonhos e sentimentos de muita gente, pois até hoje acredita-se que o bicho anda solto na cidade. Muitos relatos de lobisomem podem ser contados e a lenda urbana se torna presente nas vidas das pessoas.

As margens do córrego Prosa guardam os segredos e mistérios de algo inexplicável que ronda os bambuzais, local onde foi encontrada uma mulher com o corpo dilacerado por unhas e dentes de uma criatura misteriosa e desconhecida.
 
 
Disponível no site Enseada dos Pensamentos